Durante minha carreira no Porto de Santos, e somente como agente marítimo, foram mais de 25 anos eu passei por muitas situações inusitadas. Algumas experiências gratificantes, outras nada agradáveis, e muitas delas engraçadas. Creio que o leitor pode imaginar com que tipo de rotina um agente marítimo convive em seu trabalho, cercado de pessoas e nacionalidades diversas, imprevistos operacionais, e sob a pressão de quem tem que tomar decisões rápidas.
Essas passagens viraram os “causos” típicos que hoje conto para alguns mais jovens, ou relembro quando me encontro com velhos amigos e colegas de profissão.
Dentre as situações engraçadas, destaco uma que já contei antes e que quero relembrar. Parece filme de comédia, mas juro que foi pura verdade. E tenho testemunhas para confirmar.
Na época de Cory Irmãos, eu era o responsável por atender os navios da Baltic Shipping Co., estatal da extinta União Soviética. Certa vez, um navio atracou no armazém 23 de manhã cedo. Naquela época, o armazém 23 recebia navios de granel, carga geral e outras cargas, e ficavam vários dias atracados para descarga e embarque.
Depois que a visita das autoridades terminou a burocracia de entrada, emitiu os passes e liberou o navio para operar, eu fiquei na cabine do comandante com nosso supervisor de estiva, Peri, e o conferente credenciado Ernesto, discutindo com o comandante e imediato a programação do navio, plano de carga etc. E junto conosco estava um visitador novato, o Celso, que tinha um jeito meio lerdo para as coisas.
Antes de eu sair do navio, o comandante deu para cada um de nós duas garrafas de vodca, como era costume naqueles anos. Mas o problema era tirar aquela quantidade de garrafas do porto. Não havia catraca no portão, como hoje. Era uma guarita em que um guarda controlava a entrada e saída de pessoas, também verificando o material que entrava e saía. E nós, da agência, tínhamos que abrir nossas maletas e mostrar que não estávamos saindo com nada proibido.
Como o conferente Ernesto passava livremente sem ser revistado, somente mostrando sua carteira de oficial de justiça aos guardas (profissão que ele também exercia em paralelo), e os guardas achavam que ele era da Alfândega ou policial, pedimos para ele tirar as garrafas em uma maleta.
O problema é que ele não podia se ausentar do início da operação. Então, a solução foi ele passar pela guarita levando a maleta, o Celso ir junto e, uma vez lá fora, Celso pegaria a maleta e colocaria no carro do Ernesto, um Voyage cinza, que estava estacionado do lado de fora do porto. E foi o que fizemos. Ernesto deu a chave do carro para o Celso, informando a cor e placa do carro, etc., e disse que estava estacionado ao longo do armazém 23. Tudo muito simples.
Passados alguns minutos, Celso retorna ao navio e senta-se à mesa onde estávamos, na cabine do comandante, sem dizer nada. Ficamos olhando por uns segundos, e como ele não dizia nada, Ernesto perguntou: “E aí, tudo certo?” – “Sim”, respondeu ele, “mas teu carro tava aberto”.
“Como assim, aberto? Tem certeza?” perguntou, surpreso, o Ernesto.
“Sim, tenho. Com vidro e tudo. Aí eu nem precisei da chave. Só coloquei as vodcas lá rapidinho, mas fechei o vidro, baixei a trava e bati a porta”.
Estranhando bastante isso, Ernesto resolveu ir com o Celso até o carro dele. Chegando lá, Celso mostrou o carro em que tinha colocado a maleta, mas, apesar de ser coincidentemente um Voyage cinza, aquele não era o seu carro. E a placa não batia, mas o Celso, assustado, nem verificou esse detalhe, colocando as vodcas no primeiro Voyage cinza que viu.
Constatada a confusão, a saída então era perguntar no armazém em frente, cuja porta estava aberta, de quem era aquele Voyage, explicar o engano e pedir para abrirem o carro e devolverem as vodcas.
Foi o que o Ernesto fez. Mas, ao perguntar no armazém de quem o carro era, o fiel apontou para um fiscal da Alfândega que estava fazendo vistoria de carga lá dentro.
Bem, não lembro agora o que eles disseram, mas sei que inventaram uma desculpa qualquer e saíram de lá o mais rápido possível.
Chegando de volta ao navio, em meio à incredulidade e risadas, queríamos matar o Celso.
E o coitado ou sortudo? fiscal da Alfândega deve estar até hoje tentando entender como aquelas garrafas foram parar em seu carro.