A entrada dos jatos E195-E2 da Embraer na frota da Latam Brasil já provoca efeitos concretos no mercado de trabalho da aviação, mesmo antes do início das operações comerciais previsto para o fim de 2026. A companhia iniciou um processo agressivo de contratação de pilotos habilitados para operar aeronaves da fabricante brasileira, movimento que colocou a Azul no centro de uma disputa direta por mão de obra especializada.
Atualmente, a Azul é a única das grandes companhias aéreas do país que opera jatos da Embraer em larga escala. Isso fez com que a maior parte dos pilotos com experiência nesse tipo de aeronave estivesse concentrada na empresa, tornando esse grupo o principal alvo do recrutamento da Latam para formar o núcleo inicial de tripulações e instrutores do E195-E2.
A ofensiva da Latam inclui um incentivo financeiro pouco comum no mercado brasileiro. A companhia oferece bônus únicos de R$ 160 mil para comandantes e R$ 80 mil para copilotos aprovados no processo seletivo. Os primeiros pilotos contratados já começaram a receber comunicados de admissão, embora a empresa não tenha divulgado o número total de profissionais selecionados até o momento.
A estratégia da Latam prevê o treinamento antecipado das tripulações antes da entrega dos 12 primeiros jatos E195-E2, programada para o último trimestre de 2026. Segundo o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, as aeronaves devem entrar em operação assim que forem recebidas, com foco em alimentar hubs e abrir novas rotas em cidades de menor porte. A expectativa é adicionar de 25 a 30 novos destinos no país com o uso do modelo.
Do outro lado da disputa, a Azul anunciou recentemente a contratação de 140 novos tripulantes, em uma tentativa de conter perdas. Ainda assim, fontes do setor avaliam que a saída de pilotos é inevitável. A companhia enfrenta um cenário mais delicado, marcado por um processo de recuperação judicial nos Estados Unidos e pela redução do quadro de tripulantes nos últimos anos, apesar do crescimento da frota.
Dados do setor indicam que a Azul perdeu mais de 300 pilotos em um intervalo de 12 meses. Em paralelo, a empresa foi alvo de questionamentos trabalhistas relacionados a escalas e períodos de descanso, o que também contribuiu para aumentar a insatisfação interna. Procurada, a Azul afirmou que investe na captação, retenção e capacitação de seus profissionais.
Especialistas destacam que o Brasil ainda não vive um apagão de pilotos, mas o risco cresce à medida que a demanda aumenta e a formação não acompanha o ritmo. Estimativas apontam que cerca de 25 mil pilotos estejam aptos a atuar no mercado, sendo aproximadamente 16 mil em operação direta na aviação civil. No entanto, a formação anual de Pilotos de Linha Aérea gira em torno de apenas 300 novos profissionais, número considerado insuficiente para atender à expansão prevista.
Além disso, a demanda global por pilotos segue elevada. Projeções da Boeing indicam a necessidade de mais de 600 mil profissionais até 2044, o que aumenta o risco de migração de pilotos brasileiros para mercados mais atrativos, como o norte-americano.
Para analistas, a chegada dos E195-E2 marca uma mudança estrutural no mercado doméstico. A Latam passa a disputar um segmento historicamente dominado pela Azul, especialmente nas rotas regionais. O impacto competitivo, no entanto, dependerá da capacidade da Latam de integrar a nova frota com eficiência, mantendo custos sob controle e ampliando a conectividade sem comprometer a rentabilidade.