A telefonia móvel pode estar diante de uma transformação importante com o avanço da tecnologia de conexão direta entre satélites e celulares. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou, em 9 de outubro, a utilização de frequências pela Starlink, empresa ligada à SpaceX, para aplicações que permitem a comunicação entre satélites e dispositivos móveis.
A decisão prevê a autorização de 15 MHz em cada sentido de transmissão na chamada banda S, faixa de radiofrequências utilizada para viabilizar esse tipo de comunicação. Parte das frequências terá autorização até 2038, enquanto outra parcela foi liberada excepcionalmente até 2029, conforme as condições regulatórias estabelecidas.
O avanço está relacionado à tecnologia conhecida como Direct-to-Device (D2D), que permite que aparelhos celulares compatíveis se comuniquem diretamente com satélites, sem depender exclusivamente de antenas terrestres para estabelecer a conexão.
Celular conectado diretamente ao satélite
O modelo pode ampliar a cobertura em regiões onde a infraestrutura convencional é limitada, como áreas rurais, localidades remotas e trechos com sinal móvel insuficiente.
A proposta da Starlink para sua próxima geração de serviços prevê a evolução da conectividade direta para incluir mensagens de texto, chamadas de voz e transmissão de dados. A implantação dos satélites V2 Mobile está prevista para começar em 2027, segundo informações divulgadas sobre o processo regulatório.
A tecnologia representa uma mudança na forma de distribuir o sinal de telefonia. Em vez de depender exclusivamente de torres e antenas instaladas em terra, a conexão poderá ser realizada diretamente entre o celular e os satélites, desde que sejam atendidas as condições técnicas e regulatórias necessárias.
Operadoras tradicionais sob pressão
O avanço da SpaceX também tem repercussão internacional. Nos Estados Unidos, a empresa anunciou um acordo para adquirir frequências de comunicação móvel da gestora Grain Management, em uma negociação estimada pela imprensa em aproximadamente US$ 8 bilhões. A operação ainda depende de aprovação regulatória norte-americana.
O movimento indica que a estratégia da empresa pode ir além da oferta de internet via satélite e avançar sobre segmentos tradicionalmente atendidos pelas operadoras móveis.
No Brasil, entretanto, a autorização de frequências para a conexão direta com celulares não significa, por si só, que a Starlink passará a substituir empresas como Vivo, Claro e TIM. A oferta comercial, a cobertura, o desempenho e o modelo de atendimento ao consumidor dependerão da evolução da tecnologia e das condições de operação.
Embora a conexão direta por satélite possa alterar o mercado de telecomunicações, não há evidências de que a internet cabeada esteja próxima do fim.
A fibra óptica continua sendo uma infraestrutura fundamental para conexões residenciais, empresariais e para o transporte de grandes volumes de dados. Ela também é essencial para interligar redes, centros de dados e estruturas de telecomunicações.
A conexão direta entre satélites e celulares tem potencial para complementar as redes existentes, ampliar a cobertura e criar novas alternativas de acesso. Isso não significa que a tecnologia substituirá, em curto prazo, todas as redes terrestres.
O impacto mais provável é uma mudança gradual na concorrência, com a integração entre redes terrestres e sistemas espaciais. Para os consumidores, a evolução poderá representar novas opções de conectividade, especialmente em locais onde o sinal móvel ainda é limitado.
O avanço da Starlink aponta para uma nova etapa das telecomunicações: a disputa não ficará restrita às torres de transmissão e às redes terrestres, mas também envolverá a capacidade de conectar dispositivos diretamente a partir do espaço.

