A evolução dos trabalhos de dragagem em trechos estratégicos dos rios da Amazônia poderá contribuir para reduzir os impactos da estiagem sobre a navegação de cabotagem e o abastecimento da região. A avaliação é de Luis Fernando Resano, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC), em análise publicada pelo Portos e Navios.

Segundo a publicação, o período considerado mais crítico para a navegação, inicialmente projetado para começar em 24 de setembro, poderá ser postergado em aproximadamente um mês caso os serviços de dragagem apresentem os resultados esperados e os levantamentos batimétricos confirmem condições adequadas de profundidade.

A questão é estratégica para a logística amazônica. Durante o período de vazante, a redução do nível dos rios pode limitar o calado das embarcações e, consequentemente, diminuir a quantidade de carga transportada pelos navios que atendem Manaus e outras localidades da região.

Profundidade é fator determinante

A relação entre nível dos rios e capacidade de transporte é direta. Em avaliação apresentada anteriormente por Resano, uma redução de 1,5 metro na profundidade disponível pode representar a necessidade de retirar entre 600 e 800 contêineres de uma embarcação com capacidade para aproximadamente 3.500 contêineres. Nesse cenário, o navio poderia operar com cerca de 23% menos carga.

O problema ganha dimensão nacional porque Manaus ocupa posição relevante na movimentação de contêineres por cabotagem. A redução da capacidade de transporte pode afetar tanto a chegada de insumos destinados ao Polo Industrial de Manaus quanto o escoamento de produtos fabricados na região para outros mercados brasileiros.

Experiência das últimas estiagens

As dificuldades enfrentadas em 2023 e 2024 mostraram a dimensão do problema. Durante a seca de 2024, a navegação de grandes embarcações até Manaus chegou a ser inviabilizada. Como alternativa, cargas foram transferidas para um píer instalado em Itacoatiara, seguindo posteriormente em balsas até a capital amazonense. A solução permitiu preservar parte do fluxo logístico, mas acrescentou tempo às operações.

O setor também passou a defender que as intervenções sejam planejadas com antecedência, antes do agravamento da vazante. Em junho deste ano, Resano já alertava que o momento de planejar a operação de dragagem era antes da chegada do período mais crítico.

Dragagem como instrumento de prevenção

A discussão de 2026 ocorre em um cenário de preocupação crescente com a possibilidade de novas restrições. Em agosto, a Agência iNFRA informou que entidades e empresas se preparavam para um período crítico de seca na região amazônica, especialmente no Amazonas, com possibilidade de impactos mais intensos entre setembro e novembro.

A mesma reportagem apontou preocupação do setor com a ausência, naquele momento, de dragagens consideradas necessárias em pontos estratégicos. A ABAC vinha defendendo a antecipação das intervenções justamente para evitar que a resposta ocorresse somente depois de a navegação já estar comprometida.

Nesse contexto, o avanço da dragagem e a realização das batimetrias assumem papel fundamental. Os levantamentos permitem identificar as condições efetivas do leito e orientar as decisões relacionadas à navegação, enquanto a retirada de sedimentos pode contribuir para preservar profundidades operacionais em trechos críticos.

Impacto vai além dos portos

A preocupação com a estiagem não se limita às empresas de navegação. O sistema de cabotagem é uma das principais conexões logísticas entre a Região Norte e os demais mercados brasileiros. Uma eventual redução da capacidade de transporte pode repercutir sobre custos, prazos, disponibilidade de produtos e abastecimento.

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O histórico recente mostra que os efeitos podem chegar também ao Porto de Santos, principal porta de entrada e saída de cargas de cabotagem para a Região Sudeste. Durante períodos de restrição em Manaus, mudanças no fluxo de cargas podem provocar reflexos sobre outros elos da cadeia logística.

Para o setor, portanto, o resultado da dragagem em 2026 será acompanhado não apenas pela profundidade alcançada, mas principalmente pela capacidade de preservar a regularidade da navegação durante a fase mais severa da vazante.

A avaliação de Resano coloca a antecipação das intervenções e o acompanhamento das condições dos rios como elementos centrais para reduzir os efeitos de mais um ciclo de estiagem sobre a logística amazônica.