Por Jornal Portuário
A Braskem iniciou uma das mais importantes reestruturações financeiras de sua história. Nesta segunda-feira (24), o Conselho de Administração da companhia aprovou o ajuizamento de pedido de recuperação extrajudicial, movimento destinado a criar proteção jurídica para a renegociação de um endividamento que chega a aproximadamente US$ 10,9 bilhões.
A medida representa um novo capítulo nas negociações que a petroquímica vinha mantendo com seus principais credores. Informações divulgadas nesta segunda-feira apontam que a empresa alcançou entendimento com grupos relevantes de investidores para avançar na reestruturação. Cerca de US$ 7 bilhões do montante estariam relacionados a títulos de dívida detidos por investidores.
O processo é diferente de uma recuperação judicial tradicional. A estratégia busca permitir que a companhia negocie e implemente uma reorganização de suas obrigações financeiras dentro de um ambiente juridicamente protegido, preservando suas atividades empresariais.
Segundo informações divulgadas sobre o processo, a Braskem obteve inicialmente adesão de 39,6% dos credores abrangidos, suficiente para avançar com o procedimento, e terá aproximadamente 90 dias para buscar o apoio necessário à consolidação do plano.
Operações continuam
Um ponto importante para fornecedores, trabalhadores, clientes e empresas ligadas à cadeia produtiva é o alcance da recuperação extrajudicial.
O procedimento está concentrado nas obrigações financeiras da companhia. De acordo com informações divulgadas após o pedido, fornecedores, funcionários e demais obrigações operacionais não estão incluídos no processo de reestruturação financeira.
Isso significa que, neste momento, a recuperação extrajudicial não representa uma paralisação das fábricas ou das atividades comerciais da Braskem.
O desafio está na estrutura de capital.
No encerramento de junho de 2026, a própria companhia informou dívida corporativa bruta de US$ 10,4 bilhões e dívida líquida ajustada de US$ 9,5 bilhões. No segundo trimestre, entretanto, a Braskem registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 3,3 bilhões, mostrando que a crise financeira ocorre paralelamente a uma melhora recente de alguns indicadores operacionais.
Cubatão coloca o tema no radar da Baixada Santista
Embora a discussão esteja concentrada no mercado financeiro, o assunto também merece acompanhamento atento na Baixada Santista.
A Braskem mantém em Cubatão a unidade industrial PE8 CUB, localizada às margens da Rodovia Cônego Domênico Rangoni. A planta é dedicada à produção de polietileno de baixa densidade (PEBD) e faz parte da estrutura industrial da companhia no Estado de São Paulo.
A presença da empresa em Cubatão torna a reestruturação especialmente relevante para uma região marcada pela integração entre indústria, transporte rodoviário, armazenagem, operadores logísticos e o complexo portuário santista.
Por isso, ainda que o processo anunciado tenha natureza essencialmente financeira, seus próximos capítulos interessam também ao setor produtivo regional.
Não há, até o momento, indicação de interrupção das atividades da unidade de Cubatão em decorrência do pedido de recuperação extrajudicial.
Um gigante tentando reorganizar sua estrutura financeira
A Braskem atravessa um cenário complexo, pressionada pelo elevado endividamento e por um ciclo desafiador da indústria petroquímica mundial.
Dias antes do pedido brasileiro, a Braskem Idesa, operação mexicana controlada pela companhia em parceria com o Grupo Idesa, entrou com processo de Chapter 11 nos Estados Unidos. O objetivo é reduzir seu endividamento sênior de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão.
No Brasil, entretanto, a estratégia adotada agora é a recuperação extrajudicial.
Na prática, a companhia ganha espaço para negociar com seus credores enquanto tenta construir uma estrutura de capital mais sustentável.
Próximos 90 dias serão decisivos
A partir de agora, o mercado acompanhará principalmente a capacidade da Braskem de ampliar o apoio dos credores e transformar as negociações em um plano definitivo.
O tamanho da dívida torna o processo particularmente complexo. Parte expressiva das obrigações está concentrada no mercado internacional, aumentando o número de interesses envolvidos na mesa de negociação.
Para a cadeia logística e industrial, porém, a questão central será outra: até que ponto a reorganização financeira conseguirá fortalecer a capacidade de investimento e preservar a operação de uma das maiores empresas petroquímicas da América Latina?
Na Baixada Santista, onde indústria e porto funcionam de maneira cada vez mais integrada, acompanhar a situação da Braskem vai além do mercado financeiro.
É também acompanhar um importante elo da atividade industrial instalada em Cubatão e de uma cadeia que movimenta matérias-primas, produtos petroquímicos, transportadores, fornecedores e serviços logísticos.
Os próximos 90 dias deverão mostrar qual será o desenho dessa nova Braskem — e qual será o tamanho do ajuste necessário para que a companhia consiga transformar uma dívida superior a US$ 10 bilhões em uma estrutura financeira sustentável.


