A instabilidade no Estreito de Ormuz voltou a mostrar como poucos quilômetros de mar podem interferir diretamente na economia mundial. As restrições à navegação provocadas pelo conflito no Oriente Médio elevaram custos operacionais, interromperam fluxos de contêineres e obrigaram grandes armadores a reorganizar suas redes.
Entre as companhias afetadas estão duas gigantes do transporte marítimo mundial: Maersk e Hapag-Lloyd. Embora enfrentem o mesmo cenário geopolítico, os efeitos sobre seus balanços têm sido diferentes.
No primeiro trimestre, a Maersk informou que o conflito ainda teve impacto financeiro limitado, apesar da suspensão das operações pelo Estreito de Ormuz. A companhia registrou EBITDA de US$ 1,8 bilhão e EBIT de US$ 340 milhões no período. A divisão Ocean, entretanto, sofreu com tarifas de frete menores e apresentou EBIT negativo de US$ 192 milhões.
Maersk consegue repassar parte dos custos
Uma das explicações está na estratégia adotada pela companhia dinamarquesa para enfrentar a crise.
A Maersk informou aos investidores que parte do aumento dos custos decorrentes da situação no Oriente Médio estava sendo recuperada por meio de fretes spot mais elevados, sobretaxas e mecanismos de ajuste relacionados ao preço dos combustíveis.
A situação também exigiu uma complexa reorganização operacional. Em junho, o Maersk Baltimore e outro navio fretado pela companhia conseguiram atravessar Ormuz e deixar o Golfo Pérsico após avaliações de segurança e coordenação com parceiros especializados.
No início do conflito, cerca de 47 mil contêineres da Maersk tinham como destino a região do Golfo. Até o final de junho, aproximadamente 44 mil já haviam sido entregues, restando cerca de 3 mil aguardando a conclusão do transporte.
Hapag-Lloyd sente impacto mais pesado
Na Hapag-Lloyd, o cenário foi mais adverso.
A companhia encerrou o primeiro trimestre de 2026 com EBITDA de US$ 494 milhões, ante US$ 1,103 bilhão no mesmo período de 2025. O EBIT passou de resultado positivo de US$ 487 milhões para resultado negativo de US$ 157 milhões.
O lucro do grupo, que havia alcançado US$ 469 milhões no primeiro trimestre do ano passado, transformou-se em prejuízo de US$ 256 milhões nos três primeiros meses de 2026.
Além da queda das tarifas de frete, a companhia atribuiu o desempenho às condições climáticas adversas na Europa e América do Norte e às interrupções provocadas pelo bloqueio de Ormuz.
A tarifa média de transporte marítimo da Hapag-Lloyd caiu de US$ 1.471 por TEU para US$ 1.330 por TEU, enquanto o volume transportado permaneceu praticamente estável, em aproximadamente 3,2 milhões de TEUs.
No segundo trimestre, os efeitos da crise continuaram. Segundo informações divulgadas pela Reuters, a Hapag-Lloyd estimou um impacto financeiro de aproximadamente US$ 600 milhões relacionado à crise no Oriente Médio. O lucro líquido trimestral recuou para US$ 83 milhões, contra US$ 306 milhões no mesmo período do ano anterior.
Por que Ormuz é tão estratégico?
O problema envolvendo o Estreito de Ormuz possui uma característica que torna a crise particularmente complexa para a navegação.
Diferentemente do Mar Vermelho e do Canal de Suez — onde embarcações podem realizar o longo desvio pelo Cabo da Boa Esperança —, as cargas destinadas aos países localizados dentro do Golfo Pérsico praticamente não possuem uma rota marítima alternativa capaz de substituir Ormuz.
Isso transforma o estreito em um verdadeiro gargalo geopolítico para a logística mundial.
Quando a passagem se torna insegura, os impactos rapidamente chegam aos armadores na forma de maior consumo de combustível, seguros mais caros, necessidade de armazenamento, alterações de escalas, reposicionamento de contêineres e contratação de soluções alternativas.
Impacto ultrapassa o Oriente Médio
A crise demonstra também como conflitos regionais podem provocar efeitos globais sobre as cadeias de suprimentos.
A Maersk chegou a implementar mecanismos adicionais de cobrança para compensar custos extraordinários associados ao redirecionamento e movimentação das cargas. Ao mesmo tempo, os armadores passaram a realizar avaliações constantes de segurança antes de autorizar novas travessias pelo estreito.
Para importadores e exportadores, o resultado pode aparecer na forma de fretes mais elevados, sobretaxas, alterações de prazos e menor previsibilidade logística.
Um teste para as grandes redes marítimas
Os resultados de Maersk e Hapag-Lloyd mostram que o impacto de uma crise geopolítica não depende apenas do tamanho da companhia, mas também da composição de suas rotas, exposição regional, contratos comerciais e capacidade de reorganizar rapidamente sua rede.
A Maersk conseguiu compensar parte das pressões por meio de crescimento de volumes, eficiência operacional e recuperação dos custos extraordinários. Já a Hapag-Lloyd, mais exposta às rotas do Atlântico e Oriente Médio, registrou impacto significativamente maior sobre suas operações e resultados.
O episódio reforça uma realidade cada vez mais presente no transporte marítimo internacional: geopolítica, logística e custo do frete estão diretamente conectados.
Para o comércio exterior brasileiro, acompanhar movimentos como esse tornou-se essencial. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, uma interrupção em uma passagem estratégica como Ormuz pode alterar redes de serviços, disponibilidade de navios e contêineres, custos de combustível e formação dos fretes internacionais.
