Uma fábrica de aproximadamente R$ 25 bilhões, uma ferrovia própria, 26 locomotivas, 721 vagões e uma produção anual projetada em 3,5 milhões de toneladas de celulose com destino majoritariamente ao mercado internacional.

No centro dessa gigantesca engrenagem logística estará o Porto de Santos.

A chilena Arauco avança na implantação do Projeto Sucuriú, em Inocência, Mato Grosso do Sul, empreendimento de US$ 4,6 bilhões que marca a entrada da divisão de celulose da companhia no Brasil.

Mas a dimensão do projeto ultrapassa os limites da fábrica.

Para retirar praticamente toda essa produção do interior de Mato Grosso do Sul, a companhia está construindo sua própria ferrovia, a EF-A35, que conectará diretamente o complexo industrial à Malha Norte.

A partir dessa conexão, a celulose percorrerá aproximadamente 1.050 quilômetros sobre trilhos até o Porto de Santos, onde será embarcada para clientes internacionais.

Na prática, a Arauco não está construindo apenas uma fábrica.

Está construindo um corredor logístico praticamente completo entre a floresta, a indústria, a ferrovia e o porto.

3,5 milhões de toneladas por ano

O Projeto Sucuriú está sendo implantado em uma área de aproximadamente 3.500 hectares, a cerca de 50 quilômetros do centro de Inocência e próximo ao Rio Sucuriú.

Quando entrar em operação, a unidade terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas anuais de celulose de fibra curta.

A previsão atual da companhia é iniciar as operações no final de 2027.

A escala coloca o empreendimento entre os maiores investimentos industriais atualmente em implantação no Brasil e reforça a transformação de Mato Grosso do Sul em um dos principais polos da indústria brasileira de celulose.

Para atender uma fábrica desse porte, entretanto, produzir é apenas metade do desafio.

É preciso retirar diariamente milhares de toneladas de produto do interior do País e levá-las, de maneira competitiva, até os mercados consumidores.

E foi justamente por isso que a ferrovia passou a ocupar posição central no projeto.

Uma ferrovia praticamente dentro da fábrica

A EF-A35 terá aproximadamente 45 quilômetros de extensão fora do complexo industrial, além de outros 9 quilômetros de trilhos dentro da própria fábrica.

O ramal fará a ligação direta entre a unidade da Arauco e o pátio da Malha Norte, operada pela Rumo.

A partir dali, a celulose continuará sua jornada ferroviária até Santos.

A estrutura representa também um marco para o novo modelo ferroviário brasileiro: o empreendimento tornou-se uma das primeiras autorizações privadas a efetivamente avançar para a fase de implantação após o novo marco das ferrovias.

As obras da EF-A35 começaram no final de 2025 e deverão ser concluídas no segundo semestre de 2027, acompanhando o cronograma da fábrica.

26 locomotivas e 721 vagões

A escala do material rodante mostra o tamanho da operação que está sendo preparada.

A Arauco prevê uma frota de 26 locomotivas e 721 vagões, dimensionada para atender a movimentação anual da futura planta.

As primeiras locomotivas, fabricadas pela Wabtec, já começaram a ser recebidas pela companhia.

São equipamentos da série Evolution ES44, produzidos em Contagem, Minas Gerais, e preparados para operações ferroviárias de carga pesada.

Cada composição poderá transportar aproximadamente 9,6 mil toneladas de celulose por viagem.

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A companhia também aposta em tecnologias embarcadas de controle e segurança, além de motores projetados para maior eficiência energética.

190 caminhões a menos todos os dias

Talvez um dos números que melhor demonstre o impacto da ferrovia esteja fora dos trilhos.

Segundo estimativas da própria Arauco, a utilização do modal ferroviário poderá evitar aproximadamente 190 viagens de caminhões por dia nas rodovias da região.

A empresa calcula ainda uma redução de até 94% nas emissões de CO₂, quando comparada a uma operação equivalente predominantemente rodoviária.

Em uma fábrica capaz de produzir milhões de toneladas anualmente, transportar toda essa carga por caminhões significaria colocar diariamente centenas de veículos pesados nas estradas entre Mato Grosso do Sul e o litoral.

A ferrovia muda essa equação.

O caminhão continua tendo importância nas cadeias florestal e industrial, mas o grande percurso até o porto passa a ser realizado sobre trilhos.

Santos será a porta para o mundo

Depois de aproximadamente 1.050 quilômetros de viagem ferroviária, a celulose chegará ao Porto de Santos.

É nesse ponto que uma obra construída no interior de Mato Grosso do Sul passa a produzir efeitos diretamente sobre o maior complexo portuário brasileiro.

A maior parte da produção do Projeto Sucuriú deverá seguir para mercados internacionais, incluindo Ásia, Europa e América do Norte.

Isso significa adicionar milhões de toneladas anuais a um corredor que já possui forte presença da celulose produzida no Centro-Oeste.

O movimento também reforça uma transformação observada na logística brasileira do setor.

Grandes produtores de celulose vêm estruturando cadeias cada vez mais integradas, conectando áreas florestais, fábricas, terminais ferroviários e instalações portuárias.

O objetivo é simples: ganhar escala, previsibilidade e competitividade.

Uma fábrica que produz até sua própria energia

O gigantismo do Projeto Sucuriú não termina na produção de celulose e na ferrovia.

O complexo também foi concebido para produzir energia a partir de biomassa.

A previsão é superar 400 MW de geração, permitindo que a fábrica seja autossuficiente energeticamente.

Parte da eletricidade excedente poderá ser disponibilizada ao Sistema Interligado Nacional.

Com isso, o empreendimento reúne em um mesmo projeto floresta plantada, indústria, geração de energia e logística ferroviária dedicada.

É uma integração pouco comum mesmo entre grandes projetos industriais brasileiros.

Inocência também será transformada

O impacto deverá ser particularmente significativo para Inocência.

Durante a fase de construção, a companhia estima gerar mais de 14 mil oportunidades de trabalho.

Depois do início da operação, aproximadamente 6 mil pessoas deverão atuar nas atividades industriais, florestais e logísticas associadas ao empreendimento.

Para um município do interior, um investimento dessa magnitude tende a provocar transformações que ultrapassam os portões da fábrica, alcançando habitação, comércio, serviços, infraestrutura e qualificação profissional.

O porto começa a 1.050 quilômetros do cais

Para o Jornal Portuário, talvez essa seja uma das principais leituras do Projeto Sucuriú.

O empreendimento mostra que a competitividade de um porto não começa quando o navio atraca.

Ela começa muito antes.

Neste caso, começa a mais de mil quilômetros do cais santista, dentro de uma fábrica construída no interior de Mato Grosso do Sul.

A EF-A35 será o primeiro elo ferroviário. A Malha Norte fará a conexão de longa distância. Santos receberá a carga. E o navio completará a cadeia levando a celulose brasileira aos mercados consumidores internacionais.

É exatamente essa integração que transforma infraestrutura em competitividade.

Quando a primeira composição deixar Inocência carregada de celulose no final de 2027, não estará apenas inaugurando uma ferrovia.

Estará colocando em funcionamento um novo corredor de exportação que começa nas florestas de Mato Grosso do Sul, percorre mais de mil quilômetros sobre trilhos e termina ao lado dos navios no Porto de Santos.