A decisão da Suprema Corte do Panamá de declarar inconstitucional o contrato que autorizava a operação dos portos de Balboa e Cristóbal pela CK Hutchinson, empresa sediada em Hong Kong, desencadeou uma reação imediata do governo chinês e abriu um novo capítulo na disputa geopolítica pelo controle do Canal do Panamá.
A CK Hutchinson entrou com um pedido de arbitragem internacional com base nas regras da Câmara Internacional de Comércio em 3 de fevereiro, apenas seis dias após a publicação da decisão judicial. Em comunicado, a companhia afirmou que a medida do Judiciário panamenho é resultado de uma campanha direcionada contra a empresa, destacando que outros contratos semelhantes no país não foram alvo de investigação.
No mesmo dia, o Gabinete de Assuntos de Hong Kong e Macau, órgão ligado ao governo central chinês, classificou a decisão como absurda e vergonhosa. Segundo o órgão, a CK Hutchinson investiu mais de US$ 1,8 bilhão em ativos no Panamá e mantém operações na região há quase 30 anos. O gabinete também afirmou que a decisão reflete pressões de países com ambições hegemônicas, em referência indireta aos Estados Unidos.
A posição foi reforçada pelo Ministério das Relações Exteriores da China. O porta-voz Lin Jian declarou que Pequim acompanha de perto o caso e acusou diretamente os Estados Unidos de influenciar o governo panamenho com uma narrativa de que a China busca controlar o Canal do Panamá. Segundo Jian, o uso do discurso do Estado de Direito estaria servindo para minar princípios do direito internacional.
Desde 1997, a CK Hutchinson administra os portos de Balboa, no Pacífico, e Cristóbal, no Atlântico, localizados nos extremos do canal. Juntos, os terminais responderam por quase 40% de todos os contêineres movimentados na região em 2025, segundo a Autoridade Marítima do Panamá. O Canal do Panamá é responsável por cerca de 5% do comércio marítimo global, o que confere peso estratégico às concessões.
A Suprema Corte considerou os contratos irregulares por concederem benefícios fiscais considerados inconstitucionais. A Controladoria Geral do Panamá argumentou que a prorrogação recente da concessão gerou uma perda superior a US$ 1 bilhão em arrecadação. A ação judicial ocorreu em meio a pressões do governo norte-americano, que chegou a ameaçar assumir o controle do canal.
A decisão foi celebrada pela Casa Branca. O Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou comunicado elogiando a medida como demonstração de maturidade democrática do Panamá, com apoio de países como Paraguai, Equador, Bolívia, Guatemala, Costa Rica e Honduras.
Antes mesmo do julgamento, a saída da CK Hutchinson do Canal do Panamá já era considerada provável. A empresa negociava a venda das concessões, juntamente com outros 40 terminais ao redor do mundo, para um consórcio liderado pela gestora americana BlackRock e pela armadora italiana MSC. No entanto, segundo a Reuters, houve interferência direta de Pequim, que exigiu a inclusão de uma empresa chinesa no negócio, possivelmente a Cosco, com participação majoritária nos portos.
Ainda não está claro se a decisão judicial panamenha inviabilizará o acordo, mas o episódio evidencia o aumento da disputa estratégica por ativos logísticos considerados essenciais para o comércio global.

