No meio de uma extensa região árida no oeste da Índia, milhares de painéis solares e enormes turbinas eólicas estão dando forma a um empreendimento cuja dimensão impressiona até quando comparada aos maiores projetos de infraestrutura do planeta.
É o Parque de Energia Renovável de Khavda, localizado na região de Kutch, no estado de Gujarat, próximo à fronteira entre Índia e Paquistão.
Quando totalmente desenvolvido, o complexo deverá alcançar 30 gigawatts (GW) de capacidade instalada, combinando principalmente energia solar e eólica.
A dimensão do projeto coloca Khavda no centro de uma transformação que ultrapassa as fronteiras indianas: a corrida internacional por novas fontes de energia, infraestrutura de baixo carbono e maior segurança energética.
Uma usina do tamanho de uma cidade
A escala territorial ajuda a compreender o tamanho do empreendimento.
A área desenvolvida pela Adani Green Energy em Khavda ocupa aproximadamente 538 quilômetros quadrados, uma extensão cerca de cinco vezes superior à área administrativa de Paris.
Não se trata, portanto, de uma usina convencional.
Trata-se praticamente de uma nova infraestrutura energética construída em pleno deserto, envolvendo milhares de equipamentos, quilômetros de redes elétricas, sistemas de transmissão e uma gigantesca cadeia logística para transportar componentes até uma região remota.
Quando concluído, o empreendimento deverá atingir 30 GW, potência suficiente para colocar Khavda entre os maiores complexos de geração renovável já concebidos no mundo.
Sol e vento trabalhando juntos
Uma das características estratégicas de Khavda é justamente combinar duas fontes renováveis.
Durante o dia, milhares de módulos fotovoltaicos aproveitam a elevada incidência solar da região. Paralelamente, aerogeradores transformam os fortes ventos locais em eletricidade.
Essa complementaridade permite aproveitar diferentes condições meteorológicas para ampliar a produção energética do complexo.
Para a Índia, que possui uma população superior a 1,4 bilhão de habitantes e uma economia em rápida expansão, aumentar a disponibilidade de eletricidade e, simultaneamente, reduzir a dependência de combustíveis fósseis tornou-se um dos grandes desafios das próximas décadas.
Por trás da energia existe uma gigantesca operação logística
Para o Jornal Portuário, entretanto, há outro aspecto desse projeto que merece atenção.
Antes de produzir seu primeiro megawatt, um parque dessa dimensão precisa movimentar uma quantidade monumental de equipamentos.
Painéis solares, estruturas metálicas, transformadores, cabos, torres, pás eólicas, naceles, geradores e equipamentos elétricos precisam percorrer uma extensa cadeia logística até chegarem ao local de instalação.
E quanto maiores os projetos renováveis, maior também passa a ser a participação da infraestrutura de portos, terminais, navios especializados, rodovias e centros logísticos.
Uma única pá utilizada em grandes aerogeradores pode alcançar dimensões que exigem planejamento específico desde o desembarque portuário até o transporte terrestre.
É justamente aí que a transição energética começa a se encontrar cada vez mais com o setor portuário.
Portos também fazem parte da transição energética
A expansão mundial da energia solar e, principalmente, da energia eólica cria uma nova cadeia de cargas de projeto.
Torres, pás, equipamentos de geração, transformadores e estruturas de grande porte precisam ser transportados entre países e continentes.
Isso significa que os portos deixam de ser apenas consumidores de energia em processo de descarbonização e passam também a funcionar como infraestrutura essencial para viabilizar a própria transição energética.
Terminais capazes de receber cargas superdimensionadas, áreas de armazenagem adequadas, equipamentos de alta capacidade e acessos terrestres eficientes tornam-se peças estratégicas desse novo mercado.
Khavda mostra claramente a dimensão que essa transformação pode alcançar.
Índia aposta alto no futuro energético
O projeto também precisa ser compreendido dentro das ambições energéticas indianas.
O país vem ampliando fortemente seus investimentos em fontes renováveis e estabeleceu metas ambiciosas de expansão da capacidade de geração não fóssil.
Isso ocorre ao mesmo tempo em que a demanda doméstica por eletricidade continua crescendo, impulsionada pela industrialização, urbanização, digitalização e aumento do consumo.
Nesse cenário, projetos gigantescos como Khavda deixam de ser apenas obras de engenharia.
Passam a integrar uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Uma imagem do futuro — construída no presente
Visto de cima, Khavda parece quase irreal.
Linhas de painéis solares avançam pelo horizonte enquanto turbinas eólicas ocupam uma região que, durante muito tempo, teve pouca utilização econômica devido às suas condições extremas.
Hoje, o mesmo sol intenso e os fortes ventos que caracterizam o deserto estão sendo transformados em ativos energéticos.
O que acontece em Khavda também envia uma mensagem para o restante do mundo.
A transição energética deixou de existir apenas em planos, metas ambientais e discursos internacionais.
Ela já movimenta bilhões em investimentos, transforma territórios inteiros e cria novas cadeias industriais e logísticas.
E, para quem acompanha o setor portuário, há uma conclusão igualmente importante:
por trás de cada gigante da energia renovável existe também uma gigantesca operação de logística.

