Companhia conclui transferência de 20 operações aeroportuárias para o grupo mexicano ASUR e passa a concentrar capital, investimentos e capacidade financeira nos segmentos de rodovias, trens, metrôs e mobilidade urbana
A Motiva concluiu uma das operações mais importantes de sua história recente. A companhia transferiu sua plataforma de 20 aeroportos para o Grupo Aeroportuario del Sureste - ASUR, controlador da Aeropuerto de Cancún e um dos principais operadores aeroportuários da América Latina.
Mais do que uma venda de ativos, a negociação representa uma mudança de direção. Ao deixar o setor aeroportuário, a Motiva reduz a diversidade de seu portfólio e concentra suas forças nos segmentos em que pretende acelerar o crescimento nos próximos anos: rodovias, trens, metrôs e sistemas de mobilidade urbana.
O valor final da transação chegou a R$ 12,211 bilhões, depois de atualizações monetárias e ajustes de balanço. Desse montante, R$ 5,187 bilhões correspondem à aquisição das ações da CPC Holding, estrutura que concentrava as participações da Motiva nos aeroportos. Outros R$ 7,024 bilhões estão relacionados às dívidas líquidas dos ativos transferidos.
A negociação havia sido anunciada inicialmente, em novembro de 2025, por R$ 11,5 bilhões. A diferença para o valor final decorre das atualizações previstas no contrato e dos ajustes realizados até a conclusão da transferência.
Plataforma reúne aeroportos em quatro países
O portfólio negociado reúne 17 aeroportos no Brasil e três operações internacionais, localizadas em Quito, no Equador; San José, na Costa Rica; e Curaçao, no Caribe.
No mercado brasileiro, a plataforma está presente em nove estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Tocantins, Pernambuco e Piauí.
Entre os terminais transferidos estão os aeroportos de Curitiba, Foz do Iguaçu, Bacacheri, Londrina, Navegantes, Joinville, Pelotas, Bagé, Uruguaiana, Goiânia, São Luís, Teresina, Palmas, Imperatriz, Petrolina, Pampulha e Confins.
O conjunto inclui ativos estratégicos para o transporte de passageiros e para a logística de cargas. Confins, Curitiba e Goiânia aparecem entre os maiores aeroportos do portfólio, enquanto terminais como Navegantes, Foz do Iguaçu e São Luís desempenham papel relevante na conectividade regional.
A plataforma movimenta mais de 45 milhões de passageiros por ano e oferece mais de 200 rotas regulares. Nos 12 meses encerrados no terceiro trimestre de 2025, o negócio aeroportuário registrou receita líquida de R$ 2,96 bilhões, Ebitda de R$ 1,52 bilhão e movimentação de aproximadamente 524 mil toneladas de cargas.
ASUR amplia presença na América Latina
A compradora é uma empresa mexicana com atuação consolidada na administração aeroportuária. A ASUR já operava terminais no México, em Porto Rico e na Colômbia. Com a aquisição da plataforma da Motiva, o grupo passa a atuar também no Brasil, no Equador, na Costa Rica e em Curaçao.
A entrada no mercado brasileiro coloca a empresa diante de uma rede diversificada, formada por grandes aeroportos internacionais, terminais turísticos e estruturas voltadas à aviação regional.
A operação também amplia significativamente a escala da ASUR no continente. Além do crescimento no número de passageiros, o grupo incorpora aeroportos com participação relevante na movimentação de cargas, no comércio eletrônico, no turismo e na conexão de regiões industriais e produtoras.
O processo de venda atraiu mais de 20 grupos interessados, entre operadores e investidores europeus, latino-americanos e asiáticos. A conclusão ocorreu depois do cumprimento das condições contratuais e da obtenção das aprovações necessárias no Brasil e nos demais países envolvidos.
Funcionários e operações entram em período de transição
Com a transferência do controle da CPC Holding, começa uma etapa de integração dos aeroportos à estrutura da ASUR.
Durante esse período, sistemas administrativos, folha de pagamento, tecnologia da informação, suprimentos e outros serviços corporativos serão migrados gradualmente. A Motiva continuará prestando suporte temporário de retaguarda para assegurar a continuidade dos serviços.
Segundo a companhia, os trabalhadores vinculados à plataforma aeroportuária também foram transferidos para a nova controladora. A previsão é que a mudança ocorra sem impactos imediatos para passageiros, companhias aéreas e demais empresas que utilizam os terminais.
A partir da conclusão da venda, os resultados do segmento aeroportuário deixam de fazer parte do balanço consolidado da Motiva. A operação já vinha sendo classificada contabilmente como atividade descontinuada enquanto o negócio aguardava o fechamento definitivo.
Venda reduz dívida e aumenta poder de investimento
A principal consequência financeira será a redução do endividamento. A Motiva informou que os recursos recebidos serão direcionados prioritariamente para diminuir a dívida da holding e melhorar a estrutura de capital.
Considerando os efeitos da operação, a relação entre dívida líquida e Ebitda consolidado poderá recuar de aproximadamente 3,7 vezes para perto de três vezes.
Na prática, a redução da alavancagem aumenta a capacidade da empresa de captar recursos, participar de leilões e assumir novos compromissos de investimento. A companhia estima existir um mercado potencial de aproximadamente R$ 170 bilhões em futuras concessões de rodovias, trens e metrôs no Brasil.
A venda dos aeroportos, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma saída de mercado. Trata-se de um movimento de reciclagem de capital: a empresa transforma participações em recursos financeiros e direciona sua estrutura para áreas consideradas mais próximas de suas competências centrais.
Da Redação — Jornal Portuário
