O Porto de Santos caminha para um dos períodos de maior concentração de obras de infraestrutura de sua história recente. A previsão é de que mais de dez grandes projetos avancem simultaneamente, envolvendo áreas portuárias, acessos rodoviários e ferroviários, canal de navegação e estruturas estratégicas nas duas margens do complexo.

Diante desse cenário, a Autoridade Portuária de Santos (APS) vem articulando cronogramas com operadores, sindicatos, órgãos públicos e representantes da comunidade portuária para tentar evitar que diferentes frentes de trabalho provoquem conflitos operacionais.

A avaliação apresentada pelo presidente da APS, Anderson Pomini, é de que a quantidade de investimentos representa uma transformação importante para o complexo. Para os próximos quatro anos, considerando investimentos públicos e privados, estão previstos cerca de R$ 25 bilhões.

Mais obras, mais necessidade de coordenação

Entre os projetos que estarão no radar estão o Tecon Santos 10, o novo terminal de passageiros, intervenções na ferrovia interna do porto, o túnel Santos-Guarujá, obras de aprofundamento do canal, melhorias no Aeroporto de Guarujá, ampliação das pistas da Rodovia dos Imigrantes, a segunda fase da Perimetral da Margem Esquerda, novos viadutos na região da Alemoa e investimentos em terminais portuários.

Também fazem parte desse cenário a implantação de um novo terminal de celulose da Arauco e a ampliação do terminal Tiplam.

O número de projetos aumenta a necessidade de coordenação. Segundo Mario Povia, presidente do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), a preocupação está justamente na possibilidade de uma obra interferir na execução de outra, já que diferentes empreendimentos envolvem União, governo estadual e municípios.

A alternativa discutida é trabalhar com planejamento integrado, inclusive avaliando possibilidades de compartilhamento de estruturas e canteiros quando houver condições.

Canal de navegação exige atenção especial

Um dos pontos mais sensíveis será a conciliação das obras com a operação marítima.

No caso do túnel Santos-Guarujá, por exemplo, a APS prevê uma comissão específica para receber o plano de trabalho, o cronograma e a proposta de eventuais paralisações do canal.

A ideia é definir as janelas de intervenção levando em consideração períodos de chuva e neblina, buscando reduzir impactos sobre a navegação.

A estratégia também prevê diálogo com a empresa responsável pela construção do túnel e com os demais usuários do complexo para compatibilizar as atividades.

Saboó terá concentração de intervenções

Outra região que exigirá planejamento será o Saboó, onde diferentes projetos estão previstos.

A área deverá receber obras relacionadas ao Tecon Santos 10, um condomínio logístico estimado em R$ 1 bilhão, além dos dois viadutos previstos na região da Alemoa, destinados à separação entre o tráfego de caminhões e veículos leves.

A APS já iniciou conversas com operadores portuários e retroportuários e representantes da comunidade para apresentar os cronogramas e identificar períodos considerados críticos para as empresas.

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Segundo Pomini, a proposta é ampliar o diálogo para reduzir os transtornos provocados pela concentração de obras.

Ferrovia também entra na transformação

A infraestrutura ferroviária está entre os projetos estratégicos.

A chamada pera ferroviária do Porto de Santos teve sua conclusão adiada para o primeiro trimestre de 2027. O projeto contempla um pátio circular em Outeirinhos, novas linhas de acesso no Macuco e melhorias voltadas ao escoamento de cargas, além de intervenções na Margem Esquerda para permitir a operação de trens maiores no Pátio de Conceiçãozinha.

A integração ferroviária ganha importância diante do crescimento esperado da movimentação de cargas e da necessidade de ampliar alternativas para o acesso e a saída de produtos do complexo santista.

Canal mais profundo para receber navios maiores

Outro projeto de grande impacto envolve o aprofundamento do canal de acesso marítimo.

A primeira etapa prevê elevar a profundidade de 15 para 16 metros, enquanto uma segunda fase deverá levar o canal de 16 para 17 metros, sob responsabilidade do futuro concessionário.

A primeira etapa possui investimento autorizado pela APS de R$ 617,9 milhões, com cinco anos previstos para as obras de aprofundamento e dois anos de dragagem de manutenção do novo gabarito.

O objetivo é permitir a operação de navios de maior porte e diminuir a dependência das condições de maré, aumentando a eficiência das operações.

Novos acessos e expansão da capacidade

No sistema rodoviário, também estão previstas intervenções importantes.

O novo viaduto de saída da Alemoa está em negociação para ser incorporado ao contrato de concessão do Sistema Anchieta-Imigrantes. O investimento estimado é de R$ 236 milhões.

Já a terceira pista da Rodovia dos Imigrantes terá aproximadamente 21,5 quilômetros, com a proposta de ampliar a capacidade do sistema para veículos pesados.

Na Margem Esquerda, a segunda fase da Perimetral do Guarujá representa outro projeto de grande porte, com investimento estimado em R$ 1,1 bilhão e aproximadamente 13 quilômetros de extensão. O início está previsto para outubro.

Porto cresce, mas precisa conversar com a cidade

O grande desafio dessa transformação será fazer com que as obras aconteçam sem comprometer a operação cotidiana do maior complexo portuário brasileiro.

É justamente por isso que o diálogo com a comunidade portuária ganha importância.

Navios precisam continuar chegando. Caminhões precisam circular. Trens precisam operar. Terminais precisam movimentar cargas. Ao mesmo tempo, máquinas, trabalhadores e canteiros de obras estarão ocupando áreas que fazem parte dessa mesma estrutura.

É uma equação complexa: construir o novo sem parar aquilo que já funciona.

A estratégia adotada pela APS busca justamente antecipar esses conflitos, colocando operadores, sindicatos, órgãos públicos e demais instituições na mesma mesa para discutir os períodos de intervenção.

Um novo Porto em três anos?

Para Anderson Pomini, o conjunto de investimentos poderá produzir uma transformação significativa no complexo santista. O presidente da APS afirmou que, diante dos projetos em andamento e previstos, é possível falar na construção de um “novo porto” em três anos.

A frase resume o tamanho da transformação projetada.

Mas existe outro desafio tão importante quanto construir: coordenar.

O Porto de Santos terá que lidar simultaneamente com obras de infraestrutura, expansão de terminais, dragagem, ferrovia, rodovias, mobilidade urbana e novos empreendimentos privados.

E, nesse cenário, o cronograma deixa de ser apenas uma ferramenta de engenharia.