Primeira edição do Fórum de Integração Logística e Infraestrutura Guarujá Interlog reuniu autoridades, empresários e executivos em Vicente de Carvalho para discutir investimentos, gargalos e novas oportunidades para a Baixada Santista

Vicente de Carvalho foi palco, ontem, da primeira edição do Fórum de Integração Logística e Infraestrutura Guarujá Interlog, encontro que reuniu autoridades, empresários, executivos, investidores, operadores logísticos e lideranças do setor para discutir os caminhos da infraestrutura e o potencial de crescimento econômico de Guarujá e da Baixada Santista.

Realizado com a proposta de aproximar os diferentes elos da cadeia logística, o evento colocou em debate a integração entre os modais rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo, além de temas como o desenvolvimento do retroporto, a ligação seca, o Aeroporto Metropolitano de Guarujá, investimentos em infraestrutura e a necessidade de redução dos gargalos de acesso à região.

A realização do fórum também marcou um movimento para ampliar a discussão logística para além da margem direita do Porto de Santos. Segundo participantes, Vicente de Carvalho reúne características estratégicas para receber esse tipo de debate, justamente pela proximidade com áreas portuárias e pela concentração de atividades relacionadas ao comércio exterior e à movimentação de cargas.

Guarujá e a dimensão do Porto de Santos

Durante o encontro, foi destacado o peso de Guarujá dentro da operação do Porto de Santos.

Segundo dados apresentados durante o evento, aproximadamente 35% da movimentação de cargas do Porto de Santos está relacionada à margem esquerda, em Guarujá. Também foi citado que, em 2025, o Porto de Santos movimentou cerca de 186,5 milhões de toneladas, enquanto Guarujá respondeu por aproximadamente 66 milhões de toneladas.

Os números foram utilizados para dimensionar a relevância da cidade dentro do principal complexo portuário brasileiro e reforçar a necessidade de que infraestrutura, acessos e planejamento acompanhem o crescimento da movimentação.

A avaliação apresentada no fórum é que Guarujá não deve ser tratado apenas como uma área complementar ao Porto de Santos, mas como parte integrante de uma estrutura logística que precisa funcionar de maneira coordenada.

Integração para evitar novos gargalos

Um dos pontos destacados durante o evento foi a necessidade de planejamento conjunto entre os diferentes projetos de infraestrutura previstos para a região.

A avaliação apresentada pelos representantes do município é que obras e novos equipamentos precisam ser planejados de forma integrada para evitar que uma melhoria em determinado modal resulte em um novo gargalo em outro ponto da cadeia.

Nesse contexto, foram colocados no debate o Porto de Santos, o retroporto, a ligação seca e o Aeroporto Metropolitano de Guarujá.

Sobre o aeroporto, foi informado durante o evento que a expectativa é realizar a homologação da pista até o final do ano, com posterior gestão pelo município em parceria com a Infraero.

Além da utilização voltada ao turismo e ao atendimento da demanda relacionada à temporada de cruzeiros, o aeroporto foi apresentado como uma possível estrutura de apoio à atividade logística regional, inclusive para movimentação de cargas.

Gargalo rodoviário continua no radar do setor

Apesar do potencial de crescimento, representantes da iniciativa privada chamaram atenção para um dos principais desafios enfrentados pela Baixada Santista: os acessos.

Durante o fórum, representantes do setor logístico destacaram que a região concentra investimentos e atividades industriais e portuárias, mas ainda enfrenta limitações principalmente na infraestrutura rodoviária.

O diagnóstico apresentado é que o crescimento da movimentação de cargas precisa ser acompanhado pela ampliação da capacidade de acesso e pela melhoria da integração entre os diferentes modais.

A questão ganha importância diante da expansão das atividades de armazenagem, transbordo, contêineres, fertilizantes e outros segmentos vinculados ao comércio exterior.

Fertilizantes reforçam importância regional

A cadeia de fertilizantes também apareceu entre os exemplos da dimensão logística da Baixada Santista.

Representante do grupo Cesari destacou que o Brasil importa aproximadamente 92% dos fertilizantes utilizados no país, enquanto Santos possui participação relevante nessa cadeia.

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A empresa mantém operações relacionadas a armazenagem, transbordo, contêineres, isotanks e cabotagem, além de atividades voltadas ao transporte de produtos químicos perigosos.

Segundo o executivo, parte significativa das operações do grupo está concentrada na Baixada Santista, região que também recebeu investimentos da companhia na margem esquerda do complexo portuário.

O relato reforçou uma das principais questões discutidas no Interlog: não basta ampliar a capacidade portuária se os demais elos da cadeia não estiverem preparados para acompanhar a movimentação.

Infraestrutura precisa acompanhar expansão

Outro tema apresentado durante o fórum foi a preparação da indústria de infraestrutura para atender à expansão dos terminais portuários e centros logísticos.

Representante da Associação Bloco Brasil destacou a capacidade instalada da indústria nacional de blocos de concreto para pavimentação e a aplicação desse sistema em áreas submetidas a grandes cargas, como terminais portuários, pátios intermodais e centros logísticos.

Segundo dados apresentados durante o encontro, a capacidade anual de produção do setor já estaria na faixa de 7 milhões de metros quadrados.

A pavimentação destinada a áreas portuárias exige características específicas. Além da resistência à compressão, foram destacados fatores como resistência à abrasão, controle dimensional e capacidade de suportar cargas elevadas e impactos decorrentes da movimentação e armazenagem de contêineres.

Uma das características apontadas é a possibilidade de manutenção localizada. Em determinadas situações, caso uma peça apresente desgaste ou dano, a substituição pode ser realizada sem a necessidade de reconstrução integral da pavimentação.

Desenvolvimento econômico e geração de empregos

Mais do que discutir obras, os participantes defenderam uma visão de longo prazo para o desenvolvimento regional.

A proposta apresentada no evento é transformar o avanço da infraestrutura e da atividade logística em investimentos, geração de empregos, aumento da renda e novas oportunidades para a população.

A discussão também foi relacionada ao conceito de planejamento contínuo. Mudanças no cenário internacional, conflitos, alterações climáticas, transformações no comércio global e eventos como a pandemia demonstram, segundo participantes, que projetos de médio e longo prazo precisam ser constantemente revisados.

Nesse contexto, a integração entre setor público, empresas, investidores e comunidade empresarial foi apontada como fundamental para identificar gargalos e antecipar demandas.

Evento busca continuidade

O Interlog também foi apresentado como uma iniciativa voltada à continuidade do debate sobre infraestrutura e logística.

A organização destacou a intenção de transformar as discussões realizadas em eventos do setor em propostas e informações que possam chegar a órgãos públicos, ministérios e estruturas responsáveis pelo desenvolvimento econômico.

Essa metodologia também está relacionada ao Encontro Nacional Indústria Porto, iniciativa que busca aproximar a atividade produtiva da logística e transformar os debates realizados nos eventos em diagnósticos e propostas para o setor.

A tecnologia também foi apontada como elemento permanente dessa transformação. Para os participantes, acompanhar novas soluções tecnológicas e antecipar mudanças é parte essencial do planejamento de infraestrutura.

Guarujá 2034

O debate sobre o futuro da cidade também esteve associado ao movimento Guarujá 2034, formado por empresários e representantes locais com a proposta de discutir o desenvolvimento da cidade até o centenário do município.

A visão apresentada durante o encontro considera que o crescimento precisa ser sustentado por três pilares: econômico, social e ambiental.

A proposta é que o avanço da atividade portuária e logística seja acompanhado por desenvolvimento urbano, oportunidades econômicas e equilíbrio ambiental.

Sustentabilidade também entrou na pauta

O próprio evento adotou uma iniciativa relacionada à sustentabilidade.

Segundo a organização, o fórum passou por um processo de neutralização de carbono, considerando impactos relacionados à montagem e realização do evento, incluindo consumo de energia, água e deslocamento dos participantes.

A metodologia prevê a mensuração das emissões e a conversão desse impacto em ações de compensação ambiental por meio do plantio de árvores.

Um novo espaço para discutir a logística regional

A primeira edição do Guarujá Interlog colocou em evidência uma realidade que há anos faz parte da operação do Porto de Santos: a margem esquerda possui papel relevante na movimentação de cargas e precisa estar inserida nas discussões sobre o futuro da infraestrutura regional.

Ao reunir diferentes segmentos em Vicente de Carvalho, o evento abriu espaço para discutir não apenas os desafios atuais, mas também como os novos investimentos poderão se conectar entre si.

A mensagem que permeou os debates foi a de que o crescimento da movimentação portuária precisa caminhar junto com acessos eficientes, integração entre modais, infraestrutura adequada, tecnologia, sustentabilidade e formação de oportunidades.

Para uma região que concentra porto, indústria, retroárea, rodovias, ferrovia e perspectivas de expansão da aviação, o desafio passa a ser transformar essa diversidade de ativos em uma rede logística cada vez mais integrada.