"Je n’ai pas vu le temps passer" (Eu não vi o tempo passar), diz uma antiga canção de Charles Aznavour.
Normalmente, quando alguém pensa nisso, é com a sensação de tempo não vivido, mal vivido ou desperdiçado.
Mas a noção de tempo é de extrema complexidade, relativa, como Einstein teorizou. Quando estamos felizes, ele parece passar depressa, mas a sensação é a mesma quando estamos aflitos ou ansiosos. No entanto, beira à eternidade quando esperamos avidamente por dias melhores, ou volta a "passar" vertiginosamente quando saturamos nossas vidas com trabalho insano e atividades de toda espécie, quais narcóticos a nos distrair da falta de sentido que damos à vida, ou que não encontramos nela.
Esse derradeiro modo de encarar o tempo destrói nossa sensibilidade, nossa humanidade. As pessoas viram objetos, números. Os objetos tornam-se mais importantes do que elas, mas todos perdem valor a qualquer momento em nome de um "novo" que não necessariamente inova. O ritmo desenfreado e impulsivo faz com que o tempo que não se vive, ou que se vive mal, "flua" mais rápido, por inércia, sem brilho, sem detalhe, sem memória, sem paixão, sem sentido.
De repente a gente para, olha em torno, olha para si, no espelho, e para dentro, na alma, e percebe que não viu o tempo passar, não porque se quis que ele passasse depressa, mas porque esteve alheio a ele, ou à espera passiva de dias melhores. Esses podem ter sido tempos cheios de sensações, mas sem sentimentos. Tempos que não nos dão a leveza da vida em plenitude, mas o peso do vazio existencial.
Tempos que nos esvaem numa induzida vertigem materialista. Vertigem que começa com coisas, depois se estende a pessoas. Vertigem que substituirá amigos por interesses? Então, sem que se perceba, todos os prazeres terão sido experimentados, sem limites, às vezes exacerbados artificialmente, mas sem nenhum vestígio de amor sincero; os sons da natureza serão inaudíveis; as pessoas amadas serão intocáveis; os aromas e gostos serão modas? No limite, o dia presente tornar-se-á uma vaga esperança do dia futuro, que nunca virá porque não é construído; porque, quando chegar, será mais um dia presente, que se quer passado.
Quem vive assim, quando pressente o "risco" do comprometimento, o repele, com medo de perder a liberdade de provar de tudo o que o convenceram de que a vida oferece de "melhor". Mal sabem que assim podem estar desperdiçando o que a vida tem realmente de melhor, por medo de ousar e sofrer.
Quem aceita viver assim se transforma em mais uma engrenagem da máquina de moer vidas do mercado ou em uma peça do relógio do tempo perdido, que o atrasar dos ponteiros nunca conseguirá resgatar.
Deus nos deu nervos para sentir, e não é "cortando-os" que estaremos livres das dores e aflições do mundo. No mais, se isto nos poupa da dor, também nos priva dos sentidos, e tudo isso faz com que não vejamos o tempo passar ou, pior, que desejemos que ele passe depressa. Alguns até decidem interrompê-lo.
O tempo não merece isso!
É preciso dar graças à vida e tornar cada dia único, memorável! Material, sim, mas principalmente humano e espiritual, para que toda vez que pensarmos na vida, tenhamos a certeza de que ela está sendo bem vista, com todos e em todos os sentidos.
Então: "Carpe diem", colegas!