A infraestrutura do DREX estava baseada na tecnologia de registro distribuído (DLT), mais precisamente a rede permissionada Hyperledger Besu. Mas nos testes ficou evidente que esse modelo não conseguia conciliar simultaneamente dois requisitos essenciais: privacidade do usuário (como exige a legislação de sigilo bancário e proteção de dados) e auditabilidade/regulação do sistema financeiro.
Segundo o presidente do BC, a tecnologia “não se revelou viável” para os objetivos planejados.
Além da questão da privacidade, o modelo técnico escolhido mostrou altos custos operacionais e desafios de manutenção em escala nacional, o que tornou insustentável implementar o DREX sob essa forma.
Durante a fase 2 do piloto, o DREX testou diversos casos de uso, como tokenização de ativos, contratos inteligentes e liquidação de operações complexas (imóveis, crédito, agronegócio etc.). Mas a tentativa de garantir anonimato total prejudicava a programabilidade, e os mecanismos de privacidade testados (como provas criptográficas, segregação de redes, contratos privados) causavam perda de eficiência, aumento de latência e complexidade operacional.
Em outras palavras: era difícil oferecer um sistema seguro, funcional e conforme a lei ao mesmo tempo.
Na reunião realizada no início de novembro de 2025, o BC comunicou aos consórcios envolvidos que a plataforma DREX será desativada a partir de 10 de novembro. A partir daí, o projeto será reestruturado com nova base tecnológica e com foco redirecionado não mais priorizando tecnologia (blockchain) mas casos de uso práticos.
O que antes era concebido como “moeda digital para todos” agora passa por um redesenho. A nova versão prevista deve focar em tokenização de ativos, interoperabilidade com o sistema financeiro existente, crédito colateralizado, e outras aplicações de infraestrutura, não necessariamente como uma moeda de uso cotidiano.
O BC insiste que o projeto não está morto; está em amadurecimento. Mas o sonho inicial de lançar o DREX ainda não tem prazo definido.
O DREX expunha um dilema clássico de tecnologia e política monetária: ao tentar transformar o real em uma moeda digital programável com contratos inteligentes, liquidação instantânea e tokenização de ativos, o projeto acabou esbarrando nas realidades regulatórias, técnicas e de privacidade.
O resultado é que o que parecia ser o futuro do sistema financeiro brasileiro virou um alerta: a tentação da inovação técnica, quando colocada acima das garantias de segurança, privacidade e robustez institucional, pode ser contraproducente. Em vez de avançar, o Brasil recuou pelo menos temporariamente no caminho do real digital.
O “tiro” dado na direção da modernidade acabou revelando fragilidades estruturais: a tecnologia não cumpriu o que prometia; os custos mostraram-se altos demais; os riscos de privacidade e compliance foram impeditivos. O saldo: atraso, incerteza e desconfiança.
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O DREX, como moeda digital de uso amplo e cotidiano, provavelmente está suspenso por tempo indeterminado. Quem esperava poder usar o Real Digital no dia a dia deve se preparar para esperar mais.
A próxima fase do projeto promete ser mais pragmática, com foco em soluções pontuais, como tokenização de ativos, crédito colateralizado, interoperabilidade com sistemas existentes (Pix, Open Finance etc.) e menos ambiciosa em termos de “moeda digital universal”.
A retração evidencia os desafios de combinar inovação tecnológica com regulação à prova de falhas, privacidade e segurança um desafio para o Brasil, mas também para qualquer país.
O episódio deixa um alerta importante para futuros projetos de CBDC: tecnologia não basta, é preciso maturidade, infraestrutura robusta e respeito às normas regulatórias e de proteção ao cidadão.