A ECONOMIA AZUL E O FUTURO DO BRASIL

 

O Fórum Economia Azul, promovido pela Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS), pela FGV Transportes, pela Fundação Centro de Excelência Portuária (Cenep) de Santos e pelo Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), foi de extremo interesse.

O evento contou com palestras e painéis de debates, dos quais participaram representantes dos setores governamentais, empresariais e acadêmicos, cada um expondo suas percepções e ações sobre esse tema cada vez mais presente nas discussões e planejamentos estratégicos do Brasil e do mundo.

Um destaque especial merecem as participações da Marinha do Brasil.

A Palestra Magna sobre Economia Azul foi feita pelo Almirante de Esquadra Ilques Barbosa Junior, da FGV Transportes. Ele iniciou sua fala, lembrando que 90% do PIB mundial circula pelos oceanos. Alertou que historicamente quem domina os mares tem ascendência mundial. Não à toa, os portos são passíveis de ameaças sanitárias, energéticas, cibernéticas, geopolíticas e econômicas. Ponderou que reduzir gaps nesses aspectos é pensar no futuro, e que o que vence guerras é o conhecimento adquirido com pesquisa e inovação. Destacou a importância da computação quântica, do domínio do ciclo de minérios críticos e do desenvolvimento e produção de semicondutores. Também comentou sobre a oportunidade que o mar propicia à produção de outras moléculas e substâncias, como oxigênio, amônia, metano, hidrogênio “verde” e “azul”.

Outra preocupação está em evitar as “ondas de choque” da disputa entre os EUA e a China, mantendo o foco no desenvolvimento estratégico do Brasil.

O Comandante Flávio Mathuly, Coordenador da Comissão de Temas Ambientais na International Maritime Organization (IMO), debateu no painel sobre Grandes Obras Estruturantes.

Sua fala evidenciou que a atuação da Marinha, em parceria com a diplomacia brasileira, foi decisiva para evitar que os interesses das nações desenvolvidas prejudicassem os do Brasil e de países em desenvolvimento. A inclusão do etanol como combustível de transição foi uma das conquistas auferidas. Os avanços no desenvolvimento do biodiesel, também.

A palestra de encerramento foi proferida pelo Vice-Almirante Marco Antônio Linhares Soares, Comandante do 8º Distrito Naval, que se fez acompanhar do Capitão de Mar e Guerra Leandro Gomes Mendes, Capitão dos Portos de São Paulo.

A Marinha do Brasil, além de suas atribuições constitucionais, pela alta competência de seu efetivo e na defesa da soberania e interesses estratégicos nacionais, também tem tido participação fundamental nas discussões promovidas pela World Association for Waterborne Transport Infrastructure (PIANC).

A Marinha é responsável pela defesa da soberania nacional e profícua produtora de conhecimento. Também é órgão de controle e fomento de pesquisas e ações que têm tornado o Brasil uma referência mundial.

Durante todo o evento, a sustentabilidade foi uma das palavras-chave.

Temas como a exploração de petróleo e gás e águas profundas e ultra-profundas demonstraram que nosso país não pode abrir mão desse tipo de energia. O Almirante Ilques já havia destacado que a tecnologia desenvolvida pela Petrobras permite que o custo de extração do petróleo em nosso país seja de US$ 9/barril, enquanto que, no Canadá, ele é de US$ 35! Isso permite afirmar que o Brasil tem a produção mais sustentada do mundo!

Também foi enfatizada a importância da exploração da margem equatorial, que tanta polêmica gerou entre órgãos licenciadores e ambientalistas radicais.

Preocupou, mais uma vez, os riscos relativos à limitação da capacidade produtiva das refinarias nacionais. Não foi diferente sobre a necessidade de novas plataformas de apoio offshore, inclusive no Estado de São Paulo. A premência da ampliação das dutovias, modo de transporte que reduz significativamente os custos logísticos, também foi pontuada. Sem esses investimentos, o Brasil poderá ter que voltar a importar petróleo em 2030.

A geração de energia eólica offshore também foi destacada, com potencial para sua instalação ao longo dos mais de 7 mil km de costa. Essa extensão também foi mencionada quando ressaltaram as vantagens logísticas da cabotagem.

A infraestrutura portuária foi outro tema relevante.

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Sobre a dragagem, operação fundamental para assegurar acesso e competitividade dos portos, foi ressaltado o risco que tem representado a dependência de empresas internacionais.

Lembraram da Companhia Brasileira de Dragagem (CBD), criada em 1967 e extinta em 1987, que chegou a ter cinco grandes dragas principais, além de equipamentos de apoio e embarcações menores. Durante o evento, afirmaram que a CBD teve uma frota superior a trinta embarcações de diversos tipos, capacidade e funções.

Seu patrimônio foi incorporado à Empresa de Portos do Brasil S.A. (Portobras), criada em 1975 e extinta em 1990, após o que os serviços de dragagem passaram a ser exclusivamente privados, o que fez o Brasil ter que entrar “na fila” para contratar esse tipo de serviço.

O Plano Nacional de Dragagem (PNL), criado em 2007, demonstrou a importância estratégica desse serviço. Porém, além da dependência de disponibilidade de equipamentos adequados pelas empresas especializadas, ainda há o risco de judicializações de processos licitatórios. Algumas decisões inconsequentes já inviabilizaram temporariamente berços de atracação no Porto de Santos, com severos prejuízos à economia do Brasil.

Em outro evento, também em 2026, ocorrido na Autoridade Portuária de Santos, a dragagem também foi mencionada. Um dos palestrantes ponderou sobre o risco de empresas que prestam esse tipo de serviço serem utilizadas para atender interesses geopolíticos. Esse risco foi entendido como tão real que citaram exemplos de países cujos governos participam diretamente desse processo, como forma de assegurar sua soberania no setor.

É o caso da França, em que a dragagem é feita pela empresa GIE Dragages-Ports, que reúne o governo francês, suas principais autoridades portuárias e administrações regionais. Essa opção decorreu do histórico de guerras.

A GIE Dragages-Ports gerencia, mantém e compartilha sua frota de dragas e serviços para os portos franceses.

Além do destaque à CBD, os representantes da Marinha também manifestaram a importância da volta de armadores nacionais e do incremento da indústria naval. Lamentaram, no entanto, a falta de pessoal especializado nesses setores, alertando sobre a necessidade de formar mais e melhores profissionais para atender essa demanda.

E, por falar em demanda, o representante da Invest SP, Cláudio Makarovsky, e o Gerente-Geral de Energias Renováveis da Petrobras, Jair Toledo, fizeram importantes ponderações sobre a implantação de atividades de apoio offshore no Estado de São Paulo.

A potência da exploração da Bacia de Santos favorece a atração de empresas desse setor, mas é preciso qualificar mão de obra para nele atuar.

O terminal da Saipem, instalado no Centro Industrial-Naval de Guarujá (CING), foi citado como exemplo desse potencial, apesar das restrições de acesso terrestres existentes.

O resumo desses comentários foi ao encontro de um tema que já abordei em alguns artigos: a criação de um estaleiro na margem direita do Canal de Piaçaguera, em Cubatão.

Ele teria múltiplas funções: manutenção de embarcações avariadas no complexo portuário, em vez de terem que ser rebocadas para estaleiros no Rio de Janeiro; construção e manutenção de plataformas de exploração de petróleo e gás; e descomissionamento de embarcações e de estruturas offshore. A proximidade com a Usiminas permitiria o fornecimento de chapas navais (blanks), além da utilização de berços de atracação ociosos daquela empresa. Caso a Usiminas decida implantar forno elétrico a arco na aciaria, a sucata gerada pelo descomissionamento de embarcações, estruturas offshore e veículos terrestres também fornecerá matéria-prima para reciclagem, algo que a Gerdau Aços Especiais já faz, em uma usina integrada de Charqueadas/RS.

Caso a Usiminas seja um pouco mais “ousada”, poderá retomar o projeto de criação de uma fábrica de blocos navais, como previsto pela Usiminas Mecânica, na década de 2010.

Essa sugestão foi reiterada a representantes da Prefeitura de Cubatão presentes no evento.

Na palestra final, sob responsabilidade do Vice-Almirante Linhares, foi destacado o papel da Marinha do Brasil nesse processo, além do potencial de exploração sustentada de nossa costa e da área que passou a ser denominada “Amazônia Azul”, com seus cerca de 5,7 milhões de km².

A segurança nacional inclui não apenas a defesa da exploração das áreas abrangidas, mas também das instalações nelas existentes, como cabos oceânicos e dutos de petróleo e gás.

A transição energética, associada à capacidade e eficiência dos portos, que também depende de acessos terrestres, permitirá a redução da emissão de gases de efeito estufa. A exploração consciente do fitoplâncton e das riquezas minerais estratégicas, como cobalto, níquel, manganês, cobre, lítio e terras raras, é fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

Tudo isso sem falar na pesca e no turismo de cruzeiros, atividades que já existem, mas podem ser ainda mais aprimoradas e valorizadas.

Pelo mar, cerca de 95% da balança comercial circula. Também é nele que reside um futuro que, mais uma vez, coloca o Brasil numa posição de vanguarda no concerto das nações.

As manifestações ocorridas no evento demonstram que há técnicos em condições de transformar esse potencial em realidade, que a Economia Azul é mais um trunfo que o Brasil possui. Porém, para que tal ocorra, é necessário que nossa legislação favoreça esse cenário auspicioso e que radicalismos deem lugar ao planejamento estratégico de Estado.

Por ora, parabéns aos organizadores do evento e a todos os que se manifestaram nele!

Espero que este artigo tenha minimamente resumido sua importância.

 

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras