A descarbonização do transporte marítimo não depende apenas dos navios. Ela também passa pelos portos.

Essa transformação já pode ser observada em Portsmouth, no sul da Inglaterra, onde embarcações atracadas são conectadas à rede elétrica terrestre e podem desligar seus motores auxiliares, reduzindo emissões atmosféricas, ruídos e o consumo de combustíveis fósseis.

Tive a oportunidade de acompanhar essa experiência durante o GreenPort Congress 2026, um dos principais fóruns internacionais dedicados à sustentabilidade portuária. Representando o Instituto PORTa, também apresentei o trabalho Dredging and Predictability: Waterway Resilience and Logistical Governance in Response to the 2026 Amazon Drought, que discutiu os impactos da estiagem extrema na Amazônia e os desafios da resiliência logística em hidrovias sujeitas a eventos climáticos cada vez mais frequentes.

Sea Change: energia limpa diretamente no cais

Um dos destaques do congresso foi a visita técnica ao Portsmouth International Port, onde está em operação o projeto Sea Change, considerado o maior sistema de shore power do Reino Unido.

A tecnologia, também conhecida como Onshore Power Supply (OPS), permite que navios desliguem seus geradores auxiliares durante a atracação e passem a utilizar energia fornecida pela rede terrestre. O benefício é imediato: menos emissões, menos ruído e melhor qualidade ambiental nas áreas portuárias.

O projeto recebeu aproximadamente £ 28 milhões em investimentos, possui capacidade de conexão de 15 MVA e deverá evitar cerca de 20 mil toneladas de emissões de CO₂ equivalente por ano quando operando em sua capacidade plena.

Mais interessante do que os números, porém, é a mensagem por trás deles. Portsmouth demonstra que a descarbonização portuária não é apenas um desafio tecnológico. É, sobretudo, uma questão de planejamento, financiamento e coordenação institucional.

A infraestrutura é apenas o primeiro passo

Durante a visita, ficou evidente que o maior desafio do Sea Change não foi instalar a infraestrutura, mas garantir sua utilização.

A administração do porto destacou que a competitividade do sistema depende diretamente do custo da eletricidade. Embora os investimentos em equipamentos tenham sido elevados, a decisão dos armadores de utilizar ou não a energia de terra está fortemente relacionada à comparação entre o preço da eletricidade e o custo dos combustíveis utilizados a bordo.

A experiência britânica mostra que a transição energética exige mais do que soluções tecnológicas. Ela demanda integração entre portos, operadores de energia, armadores e governos, além de instrumentos econômicos capazes de tornar a descarbonização financeiramente atrativa.

Essa é uma lição particularmente relevante para o Brasil, onde a discussão sobre eletrificação portuária ainda está em estágio inicial.

Da inovação à competitividade

A expansão do shore power ocorre em paralelo ao avanço das regulamentações ambientais no transporte marítimo internacional.

Na União Europeia, o regulamento FuelEU Maritime estabelece metas progressivas de redução da intensidade de carbono da energia utilizada pelos navios e cria incentivos para o uso de energia fornecida em terra. A partir de 2030, determinadas categorias de embarcações deverão utilizar essa infraestrutura quando disponível em portos europeus.

Embora a legislação não se aplique diretamente à navegação brasileira, seus efeitos ultrapassam as fronteiras europeias. Navios que operam em rotas entre o Brasil e a Europa passam a ser impactados por um ambiente regulatório cada vez mais orientado pela redução de emissões.

Nesse contexto, a eletrificação portuária deixa de ser apenas uma pauta ambiental. Ela passa a integrar a agenda de competitividade do setor marítimo.

Uma oportunidade para os portos brasileiros

O Brasil possui uma vantagem relevante nessa discussão: uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo.

Enquanto diversos países ainda dependem de fontes fósseis para geração de energia, a predominância de fontes renováveis no sistema elétrico brasileiro amplia os benefícios ambientais do shore power. Em termos práticos, cada navio conectado à rede tende a emitir significativamente menos carbono do que emitiria utilizando seus geradores auxiliares.

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O país já possui experiências concretas. Em 2024, o Porto de Santos inaugurou um sistema de fornecimento de energia elétrica para rebocadores atracados utilizando energia proveniente da Usina Hidrelétrica de Itatinga. Embora ainda distante da escala dos projetos europeus, a iniciativa demonstra que a eletrificação portuária é tecnicamente viável no contexto nacional.

Portos como Vitória, Santos, Suape e Pecém têm a oportunidade de transformar essa agenda em um diferencial competitivo, alinhando sustentabilidade, inovação e eficiência operacional.

Uma agenda para o futuro

A principal lição deixada por Portsmouth é que sustentabilidade e competitividade caminham juntas.

Os portos estão assumindo um papel cada vez mais estratégico na transição energética das cadeias logísticas. Além de movimentar cargas, passam a fornecer a infraestrutura necessária para a descarbonização do transporte marítimo.

O Brasil reúne condições favoráveis para participar desse processo: uma matriz elétrica de baixa intensidade de carbono, experiência operacional crescente e um sistema portuário em modernização.

A questão não é mais se a eletrificação portuária fará parte do futuro. A questão é quais portos estarão preparados para liderar essa transformação e capturar as oportunidades associadas a ela.

Portsmouth oferece uma possível resposta. O futuro da descarbonização marítima não começa apenas a bordo dos navios. Ele também começa no cais.

 

Maria Eduarda Medeiros Correa
Mestranda em Engenharia dos Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), Engenheira Mecânica, Tecnóloga em Construção Naval e integrante do Instituto PORTa.