A inteligência artificial já não é uma discussão sobre o que as empresas poderão fazer no futuro, mas sobre como transformar a tecnologia em resultado no presente. Essa foi uma das principais conclusões da quarta edição do Comex Tech Forum (CTF), realizada nesta quarta-feira (2), no Transamerica Expo Center, em São Paulo. Com 4 mil participantes, o encontro colocou no centro das discussões os desafios de incorporar a IA às operações, gerar retorno financeiro com seu uso e, ao mesmo tempo, preparar profissionais e lideranças para uma transformação que avança em diferentes setores da economia.

Promovido pela Logcomex, empresa brasileira de inteligência artificial para o comércio exterior, o CTF reuniu executivos, especialistas e profissionais de áreas como logística, supply chain, indústria, tecnologia, infraestrutura, finanças e gestão. Ao longo do dia, inteligência artificial, comércio internacional, geopolítica, negócios, liderança e futuro do trabalho apareceram de forma conectada nas discussões, refletindo um público que, segundo Helmuth Hofstatter, fundador e CEO da Logcomex, também chega mais preparado para aprofundar esse debate.

“O nível das pessoas que vêm ao evento subiu muito. As empresas estão nessa transição para entender como colocar a IA de fato em suas operações, e existe uma curva de maturidade acontecendo. Por isso, construímos a programação para discutir duas coisas: como a inteligência artificial está sendo aplicada hoje e o que vem pela frente. Queremos reunir os diferentes segmentos do comércio exterior para compartilhar aplicações práticas e ajudar as pessoas a se prepararem para esse futuro”, afirma Hofstatter.

A edição aconteceu ainda em um ano simbólico para a Logcomex. Ao completar uma década de atuação em 2026, a companhia adotou o posicionamento AI-First, colocando a inteligência artificial no centro de sua estratégia e da construção de suas soluções. Essa mudança também orientou a entrega do CTF deste ano, que reuniu nomes como Lars Karlsson, diretor global de Consultoria Comercial e Aduaneira da Maersk; Professor HOC, que abordou inteligência artificial e geopolítica; Dafna Blaschkauer, executiva global com passagens por Nike, Apple e Microsoft; Alfredo Soares, cofundador da G4 Educação e sócio da VTEX; e Rafael Milagre, fundador do Viver de IA. Em cima dos diferentes palcos, executivos de empresas como iFood, Volkswagen, Bradesco, BASF, Philips, O Boticário, Zurich Airport Brasil, BH Airport e outras grandes companhias também compartilharam experiências e visões sobre os desafios que já estão impactando suas operações.

Entre os destaques esteve a palestra de Rafael Milagre, voltada ao uso da inteligência artificial no dia a dia das empresas e dos profissionais. Para ele, o próximo passo não é simplesmente adotar novas ferramentas, mas incorporar a IA à cultura das organizações com objetivos claros de negócio: aumentar receitas e reduzir custos. 

“A pequena empresa hoje consegue ter acesso à tecnologia para criar soluções que antes ficavam exclusivamente com os grandes por uma questão de custo de capital. Talvez esse seja o melhor momento para uma empresa pequena se tornar grande”, afirma Milagre.

A relação entre tecnologia, estratégia e resultado também apareceu na palestra de Alfredo Soares, que conduziu uma conversa dinâmica com Allan Schmitt, gerente de vendas da Logcomex, sobre marketing, inteligência artificial e transformação dos negócios. Para ele, a vantagem competitiva não está simplesmente no acesso à IA, já que as mesmas ferramentas estarão disponíveis para diferentes empresas, mas na capacidade de criar contexto, alimentar os sistemas com dados relevantes e aplicá-los de forma eficiente.

“A vantagem não é usar. A vantagem é o que você faz com ela. Todo mundo vai ter acesso ao mesmo poder, só que cada um vai aprender a administrar esse poder e alimentá-lo de uma forma diferente”, afirmou.

Soares também chamou atenção para a necessidade de maturidade no uso da tecnologia. Diferentemente de um software tradicional, a IA tem custos que crescem conforme seu uso e complexidade, o que exige estratégia para que sua aplicação gere retorno real. Na visão do empresário, a capacitação dos profissionais não passa por reaprender completamente a ferramenta a cada evolução dos modelos, mas por acompanhar o aumento de suas capacidades e encontrar novas formas de aplicação.

“A mudança da IA não é uma mudança de usabilidade, é uma mudança de recurso. A forma de usar não vai mudar tanto; o que vai mudar é o nível de poder, processamento, combinação de dados, profundidade e pesquisa. A IA já encontrou uma forma de interagir com o ser humano; agora, o que vai mudar cada vez mais são as aplicações”, explica.

Tecnologia avança, mas transformação continua dependendo de pessoas

Se a inteligência artificial ocupou o centro das discussões técnicas e de negócios, outra conclusão atravessou a programação: quanto maior a capacidade da tecnologia, maior a necessidade de desenvolver competências humanas para utilizá-la.

Dafna Blaschkauer, executiva global com passagens por Nike, Apple e Microsoft, abordou justamente a capacidade de aprender, desaprender, perseverar e transformar conhecimento em ação. Em um ambiente no qual novas ferramentas surgem em velocidade crescente, ela defende que a velocidade da transformação não elimina a necessidade de respeitar a curva de aprendizado. 

“Está todo mundo aprendendo. Não existe hoje alguém que conheça exatamente todas as ferramentas. Mas o mais importante é colocar em prática aquilo que estamos aprendendo. A gente aprende fazendo e executando, porque é ali que se entende o que funciona, o que precisa ser ajustado e, principalmente, o que dá certo para o seu negócio.”, expõe.

Já a experiência do iFood mostrou, na prática, o papel da capacitação nesse processo. Camila Pinto, diretora de RH da companhia, contou como a empresa preparou seus cerca de 8 mil colaboradores para incorporar a inteligência artificial à rotina, combinando acesso à ferramenta proprietária de IA com workshops e espaços de experimentação. Em seis meses, os profissionais criaram cerca de 12 mil agentes, reforçando a importância de colocar os próprios times no centro dessa transformação.

“A IA vem para potencializar a nossa capacidade e as nossas competências humanas”, afirma. Segundo ela, ao assumir tarefas repetitivas e operacionais, a tecnologia pode liberar tempo para que os profissionais se dediquem mais à criatividade, colaboração, inovação e pensamento crítico. Para que isso aconteça, porém, a transformação precisa ser conduzida também pelas lideranças. “Não existe cultura sem liderança e não existe liderança sem fazer a cultura acontecer. As organizações precisam fomentar uma cultura de experimentação e inovação que traga toda a organização junto.”

Essa dimensão humana também esteve presente fora dos palcos. O networking seguiu como um dos pilares do CTF, com executivos, especialistas, patrocinadores e participantes aprofundando ao longo do dia as discussões iniciadas na programação, e a quarta edição ampliou os espaços dedicados a essas trocas.

O evento encerrou com um show de Xande de Pilares, que fechou a programação em clima de celebração e já aumentou a expectativa para a próxima edição.

CTF 2027 já tem data marcada

O Comex Tech Forum 2027 será realizado em 1º de setembro, novamente no Transamerica Expo Center, em São Paulo, e a intenção da organização é manter a trajetória de crescimento sem perder de vista os assuntos que estiverem no centro das decisões do comércio exterior.

“A gente quer superar a edição que fizemos neste ano e continuar evoluindo. Esse é o papel da Logcomex e também do evento. A cada ano, queremos reunir as discussões que realmente importam para o mercado e fazer com que quem participe saia daqui mais preparado para o que vem pela frente”, concluí Hofstatter.