O Porto de Santos está avançando em uma transformação que vai muito além da digitalização de documentos e processos administrativos. A Autoridade Portuária de Santos (APS) vem estruturando uma série de iniciativas voltadas ao uso intensivo de dados, conectividade, automação e modelos matemáticos, com o objetivo de aumentar a previsibilidade e a eficiência das operações.
A estratégia aproxima o maior complexo portuário da América Latina do conceito de Porto 4.0, modelo baseado na integração entre infraestrutura física, sistemas digitais, inteligência de dados e automação.
Entre as iniciativas em desenvolvimento está um projeto conduzido pela Fundação Carlos Alberto Vanzolini, ligada à USP, voltado ao sequenciamento de navios. A proposta utiliza recursos tecnológicos e métodos de análise para organizar de maneira mais eficiente a entrada e a saída das embarcações, buscando melhorar o planejamento das operações portuárias.
Na prática, a tecnologia pode contribuir para uma questão central da rotina de qualquer grande porto: como utilizar melhor os recursos disponíveis quando diferentes navios, cargas, berços, equipamentos e janelas operacionais precisam funcionar de forma coordenada.
Da reação à previsão
A transformação digital modifica uma característica tradicional da operação portuária: a tomada de decisão baseada predominantemente na experiência e na reação aos acontecimentos.
Com modelos matemáticos, sistemas de monitoramento e grandes volumes de dados, a operação pode passar a trabalhar com cenários antecipados.
Esse conceito já vem sendo aplicado em estudos relacionados ao Porto de Santos. Pesquisadores da USP e da Fundação Vanzolini, por exemplo, utilizaram modelos matemáticos e simulações para analisar operações logísticas, permitindo reproduzir virtualmente determinadas situações e avaliar seus possíveis efeitos antes da implementação de mudanças no ambiente real.
É justamente essa capacidade de testar cenários que coloca tecnologias como simulação computacional e gêmeos digitais no centro da discussão sobre os portos do futuro.
5G abre espaço para novas aplicações
Outro componente importante dessa transformação é a implantação de uma rede privativa 5G no complexo santista.
O projeto, desenvolvido pela APS em parceria com o Itaipu Parquetec, foi concebido para ampliar a capacidade de conectividade do porto e permitir aplicações que dependem de transmissão de dados em tempo real.
A infraestrutura poderá dar suporte a sistemas de automação, dispositivos de Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, monitoramento e soluções voltadas à segurança operacional.
Segundo informações oficiais da APS, a implantação foi planejada de maneira gradual, contemplando áreas estratégicas do complexo portuário e a realização de provas de conceito para validar novas aplicações tecnológicas.
O próprio Itaipu Parquetec informa que o projeto envolve infraestrutura, testes e homologação de aplicações de automação portuária, com investimentos mobilizados superiores a R$ 30 milhões.
Um porto conectado é apenas o começo
A implantação de conectividade avançada, entretanto, não representa por si só a chegada ao Porto 4.0.
O verdadeiro salto está na capacidade de transformar os dados gerados diariamente pela operação em decisões mais rápidas e precisas.
Nesse cenário, tecnologias como inteligência artificial, IoT, análise preditiva, sistemas de controle, drones e gêmeos digitais podem trabalhar de maneira integrada.
A APS já estabeleceu há alguns anos a transformação digital como uma de suas diretrizes estratégicas. O planejamento da companhia prevê uma infraestrutura tecnológica capaz de sustentar soluções voltadas à maior agilidade, eficiência e redução de falhas nos processos portuários.
O conceito também aparece em documentos mais recentes da companhia, que registram a implantação da rede 5G e outras iniciativas destinadas à digitalização e automação do complexo.
O desafio está na integração
Para o setor portuário, porém, tecnologia não significa apenas adquirir novos equipamentos ou instalar uma rede mais rápida.
O grande desafio está na integração entre os diferentes atores da cadeia logística.
Navios, terminais, operadores portuários, transportadores, órgãos públicos, sistemas de controle, ferrovias e demais participantes precisam compartilhar informações para que uma decisão tomada em determinado ponto da cadeia não provoque um gargalo em outro.
É nesse aspecto que o conceito de Porto 4.0 ganha importância.
Um sistema capaz de identificar antecipadamente uma alteração na programação de um navio, por exemplo, poderá cruzar essa informação com disponibilidade de berço, equipamentos, mão de obra, acesso terrestre e demais variáveis da operação.
O objetivo deixa de ser simplesmente saber o que está acontecendo e passa a ser identificar o que provavelmente acontecerá e quais medidas podem ser tomadas antes que o problema apareça.
Santos busca acompanhar a transformação mundial
A movimentação tecnológica coloca Santos na mesma discussão que envolve grandes portos internacionais, onde conectividade, automação e análise de dados vêm sendo incorporadas à gestão operacional.
A própria APS cita referências internacionais como Hamburgo, Roterdã e Barcelona ao tratar da utilização de redes privativas e tecnologias aplicadas à atividade portuária.
O caminho, portanto, não está apenas na modernização da infraestrutura física.
O próximo diferencial competitivo dos grandes portos será cada vez mais determinado pela capacidade de processar informação, antecipar cenários e coordenar diferentes operações simultaneamente.
No caso de Santos, o movimento em direção ao Porto 4.0 já deixou de ser apenas uma visão de futuro. A implantação de conectividade 5G, os estudos de sequenciamento de navios, as iniciativas de inovação e o desenvolvimento de soluções baseadas em dados mostram que a transformação já está em curso.
A questão agora será medir quanto dessas tecnologias conseguirá efetivamente chegar à rotina operacional e produzir ganhos concretos de produtividade, segurança, previsibilidade e competitividade para toda a cadeia logística.
E é justamente nessa passagem da tecnologia para o resultado operacional que estará o verdadeiro teste do Porto de Santos 4.0.