Há momentos em que decisões técnicas revelam muito mais do que argumentos regulatórios: expõem intenções, delimitam territórios e escancaram os bastidores de um setor movido por forças que nem sempre estão visíveis aos olhos do público. Foi isso que vimos, recentemente, quando o jogo foi, literalmente, mudado.

A exclusão de grupos já atuantes, pela ANTAQ da disputa inicial pelo STS10, em um dos maiores portos da América Latina, sob o argumento de preservar a concorrência, soa como uma daquelas jogadas que mudam as regras depois que o jogo começou e que, curiosamente, não surpreendem quem já conhece as cartas marcadas. Porque sim, há tempos que se joga com baralho viciado.

Na teoria, fala-se de equilíbrio de mercado, de combate à concentração e de abertura para novos competidores. No papel, parece louvável. Mas a prática nos grita outra coisa: o silêncio das docas não esconde a inquietação de quem construiu, investiu e operou e agora, de repente, vê as portas se fecharem diante de si.

Cartas Marcadas ou merá coincidência?

Não é sobre proteger gigantes. É sobre a coerência do processo. Quem já carrega a experiência, quem investiu e gerou resultados, agora é empurrado para o banco de reservas, enquanto se aposta no incerto, talvez esperando um milagre logístico que desafie os fatos e os anos de operação consolidada.

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O discurso da “concorrência saudável” se torna frágil quando, para sustentá-lo, é preciso amputar parte do setor que ajudou a manter o porto de pé e competitivo por décadas. Parece mais uma tentativa de reinventar o tabuleiro ao gosto de quem distribui as peças.

E aí a pergunta que não cala: quando se bloqueia a participação de quem conhece o terreno, o objetivo real é evitar concentração... ou controlar o enredo?

É inegável que a concentração de poder em qualquer setor precisa ser fiscalizada. Mas o remédio, quando mal dosado, pode se transformar em veneno. E esse tipo de exclusão seletiva e estratégica deixa marcas difíceis de apagar.

Dizem que a decisão é histórica. É. Porque marca o momento em que o jogo deixou de ser apenas sobre capacidade técnica e passou a ser também sobre quem está autorizado a jogar.

Capatazes e Feitores ontem e hoje

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Mas o porto, que sempre foi espaço de resistência, de movimentação, de conexão, sabe bem quando há algo fora do lugar. E o som dos guindastes, por mais mecânico que seja, ainda ecoa verdades que muitos tentam ignorar.

Porque o porto não é de poucos. O porto é de todos. E o jogo só é justo quando todos podem jogar.

por: Luiz C de Oliveira é jornalista portuário, escritor e apaixonado pelo setor, com vasta experiência em portos e logística. Ele é idealizador do site Jornal Portuário, que está entre os principais meios de comunicação e mais importantes portais de notícias do setor portuário no Brasil, com mais de 10 de história. (MTB:87682/SP)

Autor do livro "Ship Planner Planejamento Operacional V1", a 1° obra em referência ao planejamento e embarque de containers em navios cargueiros, que tem contribuído significativamente para o desenvolvimento e aprimoramento do setor portuário do país.