Durante muito tempo, a receita para mostrar força no Porto de Santos parecia relativamente simples.

Mais cais.

Mais portêineres.

Mais pátio.

Mais milhões de TEUs na apresentação institucional.

E, claro, quanto maior o navio da foto, melhor.

Só que uma nova variável resolveu entrar nessa disputa: energia.

Reach Stackers elétricas, e-RTGs, equipamentos automatizados e operações remotas começam a aparecer nos terminais. O velho diesel, companheiro inseparável da operação portuária pesada, começa a dividir espaço com cabos, baterias e carregadores.

O porto não deixou de disputar tamanho.

Agora precisa encontrar tomada para tudo isso.

O próximo gargalo pode ter alguns volts

Santos conhece bem a palavra “gargalo”.

Tem gargalo rodoviário, ferroviário, marítimo, urbano, de profundidade, de acesso e praticamente qualquer outro que décadas de planejamento portuário conseguiram produzir.

Talvez esteja chegando mais um: o energético.

Porque comprar equipamento elétrico é uma parte relativamente simples da história.

A outra é fornecer energia para dezenas deles trabalhando 24 horas por dia sem transformar o terminal em um enorme estacionamento esperando bateria.

E quando chegar em maior escala o shore power, permitindo que grandes navios utilizem eletricidade fornecida pelo porto enquanto permanecem atracados, a tomada precisará ficar um pouco maior.

Bem maior.

Navio não espera bateria carregar

Existe também um pequeno detalhe chamado operação.

Navio atracado custa dinheiro.

Portêiner parado custa dinheiro.

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Caminhão esperando custa dinheiro.

Terminal improdutivo custa muito dinheiro.

Por isso, sustentabilidade no porto precisa funcionar fora do PowerPoint.

Equipamentos elétricos terão de entregar autonomia, disponibilidade e produtividade suficientes para enfrentar uma operação pesada, contínua e com pouca tolerância para improvisos.

Porque existe uma frase que provavelmente nenhum comandante gostaria de ouvir:

“Só um momento, estamos esperando o equipamento carregar.”

E alguém precisa operar tudo isso

No meio dessa corrida tecnológica existe uma peça curiosamente importante: gente.

Equipamentos começam a ser operados remotamente, sensores passam a acompanhar movimentos, softwares tomam espaço nas operações e a manutenção começa a conviver cada vez mais com baterias e eletrônica.

Ou seja, não adianta comprar uma máquina do futuro e manter a qualificação profissional no passado.

A eletrificação exigirá investimento em infraestrutura.

Mas também exigirá treinamento e novos profissionais.

Tecnologia sem gente preparada continua sendo apenas tecnologia cara.

A corrida mudou

Durante anos, a pergunta foi:

quem movimenta mais?

Agora talvez seja necessário acrescentar algumas linhas à planilha.

Quem movimenta mais gastando menos energia?

Quem automatiza sem perder produtividade?

Quem terá infraestrutura elétrica para sustentar sua expansão?

E quem conseguirá transformar aquele belo slide sobre sustentabilidade em eficiência operacional de verdade?

O Porto de Santos continuará precisando de cais, dragagem, ferrovia, rodovia, pátios e grandes equipamentos.

Nada disso desapareceu.

Mas energia entrou definitivamente na conversa.

E talvez essa seja a parte mais interessante dessa nova corrida.

No maior porto da América Latina, não bastará ter o maior terminal, o maior equipamento ou anunciar milhões de TEUs.

Será preciso movimentar melhor.

Com produtividade, eficiência energética, tecnologia e profissionais preparados.

Porque o porto do futuro certamente será elétrico, digital e automatizado.

Só esperamos que, quando ele chegar, alguém tenha lembrado de dimensionar a tomada.