O Porto do Açu, em São João da Barra, no Norte Fluminense, está acelerando sua estratégia para conquistar uma participação maior na movimentação de grãos brasileiros. O complexo prepara a implantação de um terminal específico para produtos agrícolas e prevê um investimento inicial de US$ 100 milhões em armazéns e equipamentos.

A iniciativa coloca o Açu em uma posição cada vez mais competitiva na disputa pela movimentação de cargas provenientes de importantes regiões produtoras, especialmente Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

Atualmente, o porto já movimenta granéis sólidos vegetais por meio do Terminal Multicargas, o T-MULT. A nova estrutura, porém, terá uma finalidade mais direcionada ao agronegócio, com infraestrutura própria para receber, armazenar e embarcar grãos.

Operação deve começar em 2028

O projeto tem previsão de início das obras em 2027, com expectativa de conclusão em aproximadamente 18 meses. Na primeira fase, a estrutura deverá alcançar capacidade de 2,5 milhões de toneladas por ano.

A estimativa inicial é movimentar cerca de 1 milhão de toneladas já no primeiro ano de operação.

A operação começará utilizando o modal rodoviário para transportar as cargas até o complexo portuário. A estratégia, entretanto, foi pensada para crescer junto com a infraestrutura logística disponível na região.

Com uma futura conexão ferroviária, o potencial de movimentação poderá chegar a 9 milhões de toneladas anuais. A perspectiva está relacionada ao avanço do projeto da EF-118, ligação ferroviária planejada para conectar o Rio de Janeiro ao Espírito Santo e integrar o complexo a outras áreas da malha ferroviária.

A busca por um parceiro

Além da infraestrutura, o Porto do Açu pretende dividir parte do risco e ampliar sua presença no mercado agrícola por meio da entrada de um parceiro estratégico.

A companhia avalia a possibilidade de atrair produtores, tradings ou instituições financeiras para participar da iniciativa.

A busca por um sócio tem uma razão operacional. O porto possui experiência na gestão e movimentação de cargas, mas pretende fortalecer sua capacidade de relacionamento direto com os produtores e de captura dos volumes agrícolas.

A estratégia também permitiria ao terminal assegurar parte da carga necessária para sustentar a primeira etapa do empreendimento.

Grãos e fertilizantes no mesmo corredor

A expansão da atuação no agronegócio não acontece de forma isolada.

O Açu vem construindo uma estratégia que combina importação de fertilizantes e exportação de grãos, buscando aproveitar os fluxos logísticos de ida e volta.

O movimento é particularmente relevante para regiões produtoras do interior do país, nas quais o custo do transporte rodoviário representa uma parcela importante da formação do frete.

A lógica é criar um corredor capaz de atender tanto à chegada de insumos agrícolas quanto ao escoamento da produção.

O complexo já vem ampliando sua atuação nesse mercado. Entre as cargas movimentadas estão soja, milho, café e fertilizantes, além de outros granéis sólidos.

Uma nova disputa na logística brasileira

O avanço do Açu no mercado de grãos amplia a concorrência entre os principais corredores de exportação agrícola do país.

Historicamente, grandes volumes de soja e milho destinados ao mercado internacional concentram-se em corredores associados a portos como Santos e Paranaguá. A expansão de alternativas no Sudeste pode modificar parte dessa dinâmica, principalmente para cargas originadas em regiões produtoras mais próximas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

Receba as notícias do porto no seu e-mail Resumo com o que mais importa no setor portuário — sem spam, cancele quando quiser.

O diferencial do Açu está justamente na possibilidade de combinar uma estrutura portuária privada com novos investimentos em armazenagem, equipamentos e, no futuro, ferrovia.

O projeto ferroviário aparece, portanto, como uma peça importante para determinar até onde essa estratégia poderá chegar.

O desafio agora é garantir carga

Construir a infraestrutura é apenas uma parte da equação.

Para transformar o novo terminal em um corredor relevante de exportação, o Açu precisará garantir volumes, conquistar produtores e tradings e oferecer uma alternativa competitiva em relação aos corredores já consolidados.

É nesse ponto que entra a busca pelo parceiro estratégico.

O projeto mostra que a disputa pela carga agrícola brasileira não está acontecendo apenas dentro dos terminais. Ela começa cada vez mais longe do cais, envolvendo ferrovias, rodovias, armazenagem, contratos de fornecimento e relacionamento direto com as regiões produtoras.

Se a conexão ferroviária avançar conforme planejado, o potencial de crescimento do novo terminal poderá ser significativamente ampliado.

Para o Porto do Açu, a aposta é clara: transformar sua posição no litoral fluminense em uma nova porta de saída para o agronegócio brasileiro.

E, dessa vez, a disputa não é pelo petróleo. É pelo grão.