Saio do carro e sinto o ar gelado do inverno do Sul tocar meu rosto. Não me incomoda. A preparação para passar a noite no convés inclui várias camadas de roupa térmica, cobertas pelo uniforme de alta visibilidade. Não seria a brisa do fim da tarde que me faria tremer. Pego a mochila no banco de trás e ajeito o cabelo antes de encaixar o capacete.
O ônibus já aguarda os trabalhadores no centro do estacionamento. A cada quinze ou trinta minutos, percorre o trajeto do nosso "circular portuário", passando pelos berços 1 e 2. Subo os degraus, cumprimento o motorista e alguns colegas. Cada um segue em seu mundo: alguns assistem a vídeos no celular, outros conversam sobre futebol. Escuto comentários sobre a escalação do jogo da noite, uma piada qualquer, e seguimos viagem. Na portaria, enquanto revistava minha mochila, o vigilante perguntou:
— E aí, vai de chefe hoje? Sorrio.
— Hoje não. Estou no container. Ele devolve o sorriso de quem acaba de concluir um turno de doze horas.
— Mas é isso aí. Bom trabalho lá, garota! Agradeço e desejo um bom descanso.
Levo a mão ao crachá preso ao peito, aproximo-o do leitor eletrônico e a catraca libera minha entrada. Assim começa mais um turno de trabalho. Essa rotina hoje parece comum. A presença das mulheres no trabalho portuário já não desperta o mesmo estranhamento de algumas décadas atrás.
Estamos nos conveses e nos porões dos navios. Operamos equipamentos, conferimos e movimentamos cargas, atuamos na segurança, ocupamos funções de liderança e desempenhamos muitas outras atividades que mantêm os portos brasileiros em funcionamento. Mas nem sempre foi assim.
Quando atravessei essa mesma catraca pela primeira vez, em 2015, essa ainda não era a realidade que encontrei. A história dessa transformação começou muito antes da minha chegada ao porto, antes de qualquer uma de nós vestir um capacete e calçar uma botina para trabalhar no cais. Nossa história começa em 1932, quando as brasileiras conquistaram o direito ao voto.
A meu ver, esse foi o grande marco que iniciou a linha do tempo das trabalhadoras portuárias, pois foi a partir dele que ampliamos a participação efetiva das mulheres na vida pública e fortalecemos nossa influência na construção das políticas do país.
O resultado já começou a aparecer nos anos seguintes: a Consolidação das Leis do Trabalho, o Estatuto da Mulher Casada, em 1962, e a Constituição Federal de 1988 consolidaram a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações e proibiram a discriminação nas relações de trabalho. Hoje parece absurdo pensar que, há pouco mais de 60 anos, uma mulher ainda precisava da autorização do marido para poder trabalhar.
Mas foi justamente essa sequência de avanços legais que ampliou oportunidades e abriu caminho para mudanças que, alguns anos depois, começariam a se refletir também no cotidiano dos portos. Em 1983, antes mesmo de a Constituição assegurar expressamente a igualdade entre homens e mulheres nas relações de trabalho, Aidila Menezes, conferente no Porto do Recife, tornou-se a primeira Trabalhadora Portuária Avulsa do Brasil. Mais do que ocupar uma função até então inédita, tornou-se símbolo de uma transformação que começava a alcançar os portos brasileiros.
Em um ambiente predominantemente masculino, abriu caminho para que outras mulheres viessem depois, mostrando que a competência nunca dependeu de gênero. E ela pode acompanhar de perto o novo ciclo de modernização dos portos brasileiros, na década seguinte. A Lei nº 8.630 também entra na nossa linha do tempo.
A partir dela, o setor foi reorganizado; criou-se o Órgão Gestor de Mão de Obra (OGMO) e profissionalizaram-se diversos processos que até então dependiam de arranjos informais. Vieram também a regulamentação do trabalho portuário avulso, a NR-29 e, anos depois, a nova Lei dos Portos, consolidando um modelo de gestão mais moderno e seguro.
E essa modernização não transformou apenas a infraestrutura e a logística. Ela também redefiniu as relações de trabalho. Com processos mais organizados, maior qualificação profissional, normas específicas de segurança e responsabilidades mais bem definidas, os portos passaram a oferecer um ambiente mais estruturado e preparado para receber uma força de trabalho cada vez mais diversa.
Foi nesse ambiente que a presença feminina encontrou condições para crescer de forma mais consistente. Ao longo das últimas décadas, a legislação brasileira continuou evoluindo. Novos direitos foram consolidados, políticas públicas ampliaram a proteção às mulheres e o mundo do trabalho passou a reconhecer que igualdade não depende apenas da lei, mas também das condições para que ela seja efetivamente vivida. Hoje, o desafio deixou de ser a ausência de direitos na legislação.
O desafio passou a ser transformar esses direitos em realidade no dia a dia dos portos. Quando observamos a evolução do ingresso de mulheres no trabalho portuário, percebemos que esse crescimento não aconteceu por acaso. Ele acompanhou, de forma gradual, o amadurecimento das instituições, da legislação e da própria cultura organizacional dos portos.
A atualização da NR-1 representa mais um capítulo dessa trajetória. Ao incorporar os riscos psicossociais ao gerenciamento de riscos ocupacionais, ela amplia o conceito de segurança no trabalho. Proteger o trabalhador deixa de significar apenas evitar acidentes físicos e passa a incluir também a prevenção do assédio, da violência, do adoecimento mental e de outras situações que comprometem sua dignidade.
À primeira vista, pode parecer que todas essas mudanças dizem respeito apenas às mulheres. Mas basta observar seus efeitos para perceber que seus benefícios alcançam toda a comunidade portuária. Um ambiente que previne o assédio é um ambiente em que as pessoas confiam mais nas instituições. Uma gestão que reconhece os riscos psicossociais protege a saúde dos trabalhadores. Relações baseadas no respeito fortalecem as equipes, reduzem conflitos e tornam as organizações mais eficientes.
Quando o porto se torna mais seguro para uma mulher, ele também se torna mais seguro para todos. Costuma-se dizer que os direitos das mulheres são direitos humanos. Nos portos, essa ideia ganha uma tradução muito concreta: ambientes de trabalho seguros para as mulheres são ambientes de trabalho melhores para todos.
Quando Aidila Menezes ingressou no trabalho portuário, em 1983, ela representava uma exceção. Quando atravessei aquela catraca pela primeira vez, em 2015, essa realidade já começava a mudar. Hoje, milhares de mulheres fazem parte da rotina dos portos brasileiros.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Foi construída ao longo de décadas por trabalhadoras e trabalhadores, sindicatos, operadores portuários, OGMOs, autoridades portuárias, órgãos públicos e por uma legislação que ampliou oportunidades e elevou os padrões de segurança, dignidade e respeito no ambiente de trabalho. Ainda há desafios importantes pela frente. A participação feminina continua sendo pequena em diversas atividades, e a construção de ambientes verdadeiramente seguros exige o aperfeiçoamento contínuo das instituições e das pessoas.
Mas a direção já foi traçada. Cada avanço conquistado por uma mulher elevou o padrão do ambiente de trabalho para todos. Quando os portos criam condições para que uma mulher trabalhe com segurança, respeito e igualdade, eles elevam o padrão de proteção de toda a comunidade portuária. Porque, quando as mulheres avançam, os portos avançam.

Daiane Silva de Jesus é vigia portuária no Porto de Imbituba (SC), engenheira civil e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pela PUC Minas. Representa a FENCCOVIB no GT de Equidade de Gênero do Ministério de Portos e Aeroportos e desenvolve estudos e projetos voltados à Segurança e Saúde no Trabalho no setor portuário.
