Quando se fala em portos privados, ainda é comum imaginar empresas de logística ou operadores portuários tradicionais como os verdadeiros donos e decisores desses ativos estratégicos. No entanto, a realidade é bem mais complexa. Em muitos casos, o controle dos portos não está nas mãos de quem opera diretamente o cais, mas de estruturas financeiras sofisticadas, formadas por fundos de investimento, family offices e joint ventures entre gigantes globais dos setores de commodities, petróleo e energia.

O Porto do Açu, no norte do estado do Rio de Janeiro, é um dos exemplos mais emblemáticos desse novo modelo de controle portuário. A Prumo Logística, empresa que administra o complexo, passou a ser controlada a partir de 2013 pelo fundo americano EIG Global Energy Partners, especializado em ativos de energia e infraestrutura. Outro acionista relevante, presente em diversas operações estratégicas, é o fundo soberano Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos.

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Em 2022, a Prumo deu mais um passo nesse processo de consolidação ao adquirir os 20 por cento que pertenciam à alemã Oiltanking na subsidiária Açu Petróleo. Com a operação, a empresa passou a deter a totalidade do terminal de petróleo de águas abrigadas da região, reforçando a lógica de concentração de ativos sob controle de grandes investidores internacionais, mais interessados em retornos de longo prazo do que na operação cotidiana do porto.

O Porto Sudeste, também conhecido como Superporto Sudeste, segue lógica semelhante. Construído originalmente pelo grupo MMX, de Eike Batista, o empreendimento teve seu controle transferido após a reestruturação do grupo. Atualmente, o porto é controlado por uma joint venture formada pela Trafigura, multinacional do comércio de petróleo, metais e minerais, e pelo fundo soberano Mubadala. A aquisição do controle ocorreu entre 2013 e 2014, em uma operação estimada em cerca de 400 milhões de dólares.

O acordo envolveu uma engenharia financeira complexa, que incluiu a compra de participações acionárias, a emissão e troca de títulos lastreados em royalties, conhecidos como MMXM11, além da transferência de responsabilidades relacionadas às dívidas da antiga controladora. Esses instrumentos híbridos, que misturam participação societária, remuneração variável e direitos sobre receitas futuras, são cada vez mais comuns no setor portuário.

No caso do Porto Sudeste, investidores que detinham os títulos MMXM11 precisaram lidar com processos de permuta desses papéis por outros equivalentes após a entrada da Trafigura e do Mubadala no controle. Situações como essa ilustram como o poder de decisão sobre ativos portuários pode estar distante da operação visível do dia a dia, ficando concentrado em estruturas financeiras pouco transparentes para o público em geral.

Embora em alguns portos ainda exista forte presença de famílias ou patrimônios históricos nacionais, em muitos outros o controle real está nas mãos de fundos que preferem operar de forma discreta. A família Moreira Salles não tem nenhuma participação acionária na Prumo, seja por meio de seu family office, seja de outra forma. A Prumo Logística Global S.A. é controlada pela EIG Management Company LLC (93,1%) e também tem o fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala Development Company, como acionista, com 6,9% de participação.

Diante desse cenário, a pergunta que intitula este artigo permanece atual e necessária. Quem realmente controla os portos não é, necessariamente, quem está no cais, no guindaste ou na sala de operações, mas quem estrutura o capital, define a governança e estabelece as estratégias de longo prazo. Compreender essa dinâmica é essencial para qualquer debate sério sobre soberania logística, investimentos em infraestrutura e o futuro do sistema portuário brasileiro.

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