O Reino Unido deixou de compartilhar inteligência com os Estados Unidos sobre embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe, em uma ruptura rara entre aliados históricos, segundo fontes ouvidas pela CNN. A decisão britânica foi tomada após o início de ataques letais conduzidos pelos EUA contra barcos suspeitos, que resultaram na morte de 76 pessoas desde setembro.

De acordo com as fontes, Londres teme que informações fornecidas por seus ativos na região — que incluem território ultramarino e sensores estratégicos, possam ser usadas para selecionar alvos em operações que considera ilegais. Por isso, o fluxo de dados destinados ao Joint Interagency Task Force South, centro de operações antidrogas baseado na Flórida, foi suspenso há mais de um mês.

Tradicionalmente, o trabalho conjunto entre Reino Unido, EUA e outras nações parceiras consistia em localizar embarcações suspeitas para posterior interdição, abordagem, prisão dos tripulantes e apreensão de drogas. Porém, com a mudança de postura dos EUA, que passaram a destruir barcos com armamento militar, o Reino Unido passou a considerar o risco de conivência jurídica e política.

As autoridades britânicas concordam com a avaliação do alto comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, que classificou os ataques como violações ao direito internacional e “execuções extrajudiciais”.

O governo britânico não comentou oficialmente a suspensão. O Pentágono adotou postura reservada, afirmando apenas que “não fala sobre assuntos de inteligência”.

Divergências legais

A administração Trump defende que os suspeitos de tráfico representam uma ameaça iminente e podem ser tratados como “combatentes inimigos”, argumento sustentado por parecer jurídico que permanece classificado. No entanto, especialistas em direito internacional contestam a interpretação, afirmando que os traficantes continuam sendo civis e que o uso de força letal não é automaticamente autorizado, mesmo com a designação de grupos como “organizações terroristas estrangeiras”.

Relatos também apontam que algumas das embarcações atingidas estavam paradas ou se afastando no momento do ataque, o que enfraquece os argumentos oficiais sobre ameaça imediata.

Aliados se distanciam

O Canadá, parceiro tradicional das operações antidrogas no Caribe, também sinalizou desconforto. Ottawa afirmou que suas atividades continuam coordenadas com a Guarda Costeira dos EUA, mas deixou claro que não quer sua inteligência usada para direcionar ataques letais.

Enquanto isso, autoridades internas dos EUA também demonstram preocupação. O comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), almirante Alvin Holsey, teria oferecido sua renúncia após questionar a legalidade das ações em reunião de alto nível no Pentágono. Ele deixará o comando em dezembro, apenas um ano após assumir.

A suspensão britânica expõe fissuras crescentes entre Washington e seus principais parceiros quanto à legalidade e à legitimidade da campanha militar na região, aumentando a pressão internacional por transparência e revisão das operações.