O avanço da infraestrutura ferroviária brasileira voltou ao centro das discussões sobre o futuro da logística nacional. Realizado nos dias 24 e 25 de junho, no Centro de Convenções da Unicamp, em Campinas (SP), o IX Simpósio de Engenharia Ferroviária reuniu especialistas, pesquisadores e representantes do setor para debater tecnologia, eficiência operacional, sustentabilidade e os caminhos para ampliar a competitividade do transporte sobre trilhos.

Para o setor portuário, o debate tem importância direta. A ampliação da participação ferroviária na matriz brasileira é considerada estratégica para aumentar a eficiência dos corredores de exportação, especialmente aqueles responsáveis pela ligação entre regiões produtoras, terminais logísticos e os principais portos do país.

A programação técnica abordou infraestrutura ferroviária, interação roda-trilho, veículos, logística e operações, aproximando pesquisas acadêmicas dos desafios enfrentados diariamente por concessionárias, operadores e fornecedores de tecnologia.

Ferrovia 4.0 e descarbonização

Entre os temas de maior destaque esteve a transição energética.

A mesa-redonda “Transição Energética e Inovação: Ferrovia 4.0 e Desafios Ambientais” colocou em discussão o papel das ferrovias na redução das emissões, no aumento da eficiência energética e na incorporação de novas tecnologias ao transporte de cargas.

Participaram do debate profissionais e pesquisadores ligados ao NIPE/Unicamp, Progress Rail, Rumo, UFMG e UTFPR, incluindo discussões relacionadas ao hidrogênio, fontes renováveis, manutenção ferroviária e tecnologia operacional.

A discussão ganha relevância diante da necessidade de o Brasil movimentar volumes crescentes de cargas por longas distâncias e, simultaneamente, reduzir a intensidade de carbono de sua cadeia logística.

Tecnologia internacional nos trilhos brasileiros

O encontro também contou com participação internacional.

Os professores Sakdirat Kaewunruen e Roger Dixon, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, estiveram entre os destaques da programação.

Kaewunruen apresentou discussões relacionadas aos avanços tecnológicos no desenvolvimento, operação e manutenção dos sistemas ferroviários. Dixon abordou as oportunidades de aplicação da mecatrônica nas ferrovias, mostrando como automação e novas tecnologias podem contribuir para sistemas ferroviários mais eficientes.

Operadoras discutem futuro das ferrovias

A visão das concessionárias brasileiras também integrou o evento.

O diretor-presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Davi Barreto, apresentou as perspectivas das ferrovias brasileiras, colocando em pauta questões como investimentos, produtividade, ambiente regulatório e os desafios estruturais enfrentados pelo setor.

São questões que ultrapassam os limites da própria ferrovia.

Para um país com dimensões continentais e forte participação de commodities na pauta exportadora, aumentar a eficiência ferroviária significa também melhorar o acesso terrestre aos portos e ampliar a competitividade logística brasileira no comércio internacional.

Da ferrovia ao porto

A conexão entre os dois modais torna o desenvolvimento ferroviário particularmente relevante para o setor portuário.

Portos como Santos, Paranaguá, Itaqui e os grandes corredores de exportação dependem cada vez mais de sistemas terrestres capazes de acompanhar o crescimento da movimentação de cargas.

Investir apenas dentro dos terminais não resolve toda a equação logística.

O aumento da capacidade portuária precisa ser acompanhado por ferrovias, rodovias, pátios, terminais interiores e sistemas tecnológicos capazes de organizar o fluxo de cargas até o cais.

Nesse contexto, inovação ferroviária, automação, eficiência energética e novos investimentos deixam de ser assuntos restritos aos trilhos e passam a fazer parte da estratégia de crescimento dos próprios portos brasileiros.

Regulação também entra no debate

O encerramento do simpósio ficou a cargo de Alessandro Baumgartner, diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

A participação colocou o ambiente institucional e regulatório entre os pilares necessários para definir os próximos passos da infraestrutura ferroviária brasileira.

O desafio agora é transformar conhecimento técnico, investimentos e planejamento em maior capacidade efetiva de transporte.

Para o Brasil ampliar sua presença no comércio internacional, a discussão passa inevitavelmente pelos trilhos.

Porque antes de a carga chegar ao navio, ela precisa chegar ao porto.