Era fim de tarde no dia 8 de janeiro de 1974. Havia dois dias que eu completara 13 anos, e a hipótese de hoje estar escrevendo sobre isso nem passava pela cabeça daquele garoto, que àquela altura só pensava em empinar papagaio, roubar bananas e goiabas no morro do São Bento, onde eu morava,ou pescar na praia ou na Ilha Porchat.
Naquele momento, estava iniciando o maior desastre da história do porto de Santos. O navio Ais Giorgis, de bandeira grega, atracado entre os armazéns 30 e 31 estava em descarga de produtos perigosos. Dentre eles, nitrato de sódio, produto usado para a fabricação de fertilizantes, explosivos, vidros, etc. Os estivadores estavam inquietos com o calor que saía do produto ao ser manuseado.
Além do calor, agora uma fumaça começava a se levantar de um vagão que estava sendo carregado com o nitrato. A situação piorou quando por volta de 21:00 horas um incêndio tomou conta do vagão. Os bombeiros foram acionados e enfrentavam problemas para debelar o fogo.
Enquanto eles lutavam contra as chamas, uma lingada recém descarregada foi devolvida ao porão navio, sem que se notasse que ela já continha focos de incêndio.
Perto de 22:00 horas a tripulação percebe que agora havia fogo no porão do navio, e se alastrando para outras cargas. Os 28 tripulantes evacuam a embarcação às pressas e pedem ajuda aos bombeiros que ainda trabalhavam no vagão. Todos os estivadores são então retirados de bordo também.
Apesar da intervenção dos bombeiros, o fogo a bordo se propaga de forma incontrolável, correndo o risco de passar para os demais navios atracados nos berços vizinhos, dentre eles, vim a saber quando pesquisei sobre o assunto, o navio Alteburg da extinta Alemã Oriental, que eu viria a atender 7 anos depois como visitador pela Cory Irmãos, seus agentes.
Vendo que não conseguiam debelar o fogo, decidiu-se desatracar o navio do berço com a ajuda rebocadores e levá-lo para o meio do canal, plano que foi executado.
Já perto de meia noite, explosões ecoavam por toda a cidade, e eu me recordo de ouvi-las também, e das notícias que chegavam da população alarmada. Segundo fontes, as chamas atingiam 50 metros de altura, propiciando um espetáculo aterrorizante.
Na manhã seguinte, com o céu claro, a coluna de fumaça negra antes disfarçada pela noite, podia agora ser vista do morro onde eu morava, ao lado do túnel, vinda do porto em direção diagonal ao morro do Nova Cintra e subindo até se perder de vista no infinito.
O navio ardeu durante 2 dias, até encalhar em frente ao armazém 25, onde é hoje a Concais. O fogo estava controlado, mas não sem antes ceifar uma vida. Três pessoas tinham ficado a bordo para dar apoio na rebocagem: um portuário, membro da CIPA da Cia. Docas de Santos, um bombeiro e um estivador. No momento combinado para deixar o navio, o bombeiro e o estivador desceram por um cabo colocado na proa sem problemas, mas quando foi a vez do portuário membro da CIPA, Marcelo Martim Vicente, uma forte explosão o fez cair no canal, onde desapareceu na escuridão. O seu corpo sem vida foi encontrado 2 dias depois.
Por muitos anos o navio permaneceu ali, onde encalhou, com seu casco semissubmerso e os mastros em riste, como a dizer “não se esqueçam de mim”. Acabou se tornando um estorvo para a navegação no canal, pois além de oferecer riscos, impedia a passagem de dois navios simultaneamente. Vários planos foram traçados para remover seus destroços, até que, finalmente, em 2013, o que ainda restava dele foi totalmente retirado.
Marcelo Martim Vicente foi considerado um herói pós mortis. Mas, infelizmente, nada traz de volta as vidas de trabalhadores perdidas em acidentes que ocorrem nos mares e portos do mundo.
E foi por esse motivo que decidi escrever esse texto; para contar aos mais novos essa história, e recordar com meus contemporâneos desse sinistro que fez parte de minha juventude. Um desastre que, por muitos anos depois, eu ainda lembrava todas as vezes que passava pela região da “curva do 23” e dos antigos armazéns 25 e 26, vendo aqueles destroços com aspecto tétrico a nos alertar da necessidade de estarmos sempre evoluindo na prevenção de acidentes.