04/03/2026 às 14h24min - Atualizada em 04/03/2026 às 14h24min

Ser Mulher TPA: não é sobre ocupar espaço. É sobre transformar o porto

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por: Associação Mulheres e Portos
Imagem gerada por IA

Durante décadas, o porto foi desenhado por homens e para homens. Sua cultura, sua linguagem e seus espaços nasceram dentro de uma lógica exclusivamente masculina. É nesse cenário que surge a mulher Trabalhadora Portuária Avulsa, não como exceção frágil, mas como presença transformadora.

Levantamento apresentado no âmbito do Comitê Técnico de OGMOs da Fenop revela que as mulheres representam apenas 0,7% do total de TPAs no país 108 mulheres em um universo aproximado de 15.750 trabalhadores.
São poucas. Muito poucas.

Mas cada uma delas carrega uma potência que vai além da estatística: tensionam estruturas que nunca foram pensadas para incluí-las.

O primeiro impacto é físico. Muitos portos ainda não estão preparados para receber mulheres. Falta de vestiários adequados. Banheiros em condições precárias. Uso indevido de espaços destinados ao público feminino.
Infraestrutura não é conforto. É dignidade operacional. É segurança. É permanência.

O segundo impacto é invisível: a maternidade. O porto não é, por definição, um ambiente hostil à mulher. Mas muitas vezes se mostra incompatível com o estado gestacional. Diversas TPAs enfrentam dificuldades para garantir o afastamento adequado durante a gravidez, o que gera insegurança e incerteza. Nenhuma mulher deveria viver a maternidade como risco profissional.
E há o desafio mais profundo: a cultura.

O assédio ainda é uma realidade silenciosa. “Brincadeiras”, comentários inadequados e constrangimentos são frequentemente naturalizados. O que para alguns é trivial, para outras é violência simbólica diária.

Assédio não é conflito interpessoal. É violação de dignidade. E o silêncio institucional afasta talentos.
Ser mulher TPA é resistir à invisibilidade, à inadequação estrutural e à necessidade constante de provar competência. Mas também é inaugurar caminhos.
Cada mulher que ocupa um posto na estiva, na conferência, na vigilância ou na capatazia redefine limites e amplia referências. Ela altera o imaginário coletivo. Ela abre caminho para que outras venham.

O porto está mudando. Políticas de equidade já integram a agenda de diversos atores do setor. Porque não há porto 4.0 possível em estruturas mentais 1.0. Inclusão não é pauta paralela. É agenda estratégica. É sustentabilidade social. É reputação institucional.

Mas há um ponto ainda mais estratégico: precisamos de mulheres no comando do navio. Mulheres em posições de decisão. Mulheres que possam transformar sensibilidade em política pública, experiência em governança e vivência em mudança estrutural.

Falaremos sobre isso na próxima semana.
Porque o mar é desafiador.
Mas ele também é de todas nós.

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