29/06/2026 às 07h50min - Atualizada em 29/06/2026 às 07h50min

O Patriotismo ou a Ignorância da Inversão de Valores

por: Luiz C Oliveira

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Luiz C Oliveira

Luiz C Oliveira

Colaborador eventual na coluna, Gestão Portuária.

Imagem gerada com auxílio de ia

O Patriotismo ou a Ignorância da Inversão de Valores

Todo brasileiro se diz patriota.

Basta chegar o 7 de Setembro e as redes sociais se transformam em um desfile de bandeiras, hinos, frases de efeito e discursos inflamados sobre amor à pátria. Durante a Copa do Mundo, então, o patriotismo veste a camisa da Seleção, pinta o rosto de verde e amarelo e se emociona ao ouvir o Hino Nacional.

Mas basta um jogo importante acontecer em uma terça-feira para surgir a verdadeira prioridade nacional: "Vai liberar mais cedo?", "Vai ter ponto facultativo?", "O expediente termina que horas?".

Curioso.

O mesmo cidadão que diz amar seu país comemora quando ele produz menos.

É uma contradição quase cômica.

O Brasil reclama da baixa produtividade, do atraso econômico, da falta de competitividade, da estagnação dos salários e da dificuldade em crescer. Mas, ao mesmo tempo, transforma qualquer oportunidade de reduzir o trabalho em motivo de celebração coletiva.

Não se trata de condenar o lazer. Descansar faz parte da vida e do equilíbrio humano. O problema é quando a folga passa a representar um valor maior do que o compromisso com aquilo que sustenta a própria sociedade.

O patriotismo brasileiro, muitas vezes, parece existir apenas quando não exige qualquer sacrifício.

Amamos o Brasil enquanto ele cabe em uma postagem no Instagram.

Enquanto cabe em uma camisa oficial.

Enquanto cabe em um feriado prolongado.

Quando amar o país significa produzir mais, estudar mais, respeitar filas, preservar o patrimônio público, cumprir horários, pagar impostos honestamente, combater pequenas corrupções do cotidiano e fazer o próprio trabalho com excelência, o entusiasmo desaparece.

A bandeira continua hasteada.

Mas os valores foram arriados.

Vivemos uma curiosa inversão moral.

Celebramos quem "leva vantagem".

Admiramos quem consegue trabalhar menos e ganhar mais.

Transformamos o famoso "jeitinho brasileiro" em inteligência social, quando muitas vezes ele não passa de uma sofisticada forma de transferir responsabilidades para os outros.

Depois perguntamos por que os países desenvolvidos continuam se desenvolvendo.

Talvez porque patriotismo, para eles, seja um comportamento cotidiano e não uma fantasia usada em ocasiões especiais.

O cidadão que joga lixo na rua e publica uma mensagem dizendo "Deus acima de tudo" talvez nunca tenha percebido a incoerência.

O motorista que fura a fila, estaciona em vaga de deficiente e coloca uma bandeira do Brasil na traseira do carro talvez acredite sinceramente que ama seu país.

O servidor que deseja um expediente reduzido por causa do futebol pode ser exatamente o mesmo que, no dia seguinte, reclama da lentidão dos serviços públicos.

O empresário que sonega impostos reclama da falta de infraestrutura.

O eleitor vende seu voto e depois exige honestidade dos governantes.

É uma cadeia de pequenas hipocrisias que, somadas, produzem grandes tragédias nacionais.

O patriotismo virou espetáculo.

A cidadania virou detalhe.

Talvez o verdadeiro amor à pátria não esteja em cantar o hino com a mão no peito.

Talvez esteja em devolver o troco recebido a mais.

Em cumprir a própria palavra.

Em respeitar quem pensa diferente.

Em produzir com dignidade mesmo quando ninguém está olhando.

Porque países não são construídos por discursos.

São construídos por hábitos.

No fim das contas, talvez a pergunta mais incômoda não seja se somos patriotas.

Mas se realmente gostaríamos de viver em um país formado por pessoas que agem exatamente como nós.

Se a resposta for "não", talvez o problema nunca tenha sido o Brasil.

Talvez tenha sido a confortável ilusão de acreditar que patriotismo é um sentimento.

Quando, na verdade, sempre foi uma responsabilidade.

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