Existe uma forma de violência contra a mulher que quase nunca é nomeada: a eliminação silenciosa de sua trajetória profissional.
Muitas mulheres estudam, trabalham, lideram e produzem resultados. Mas, em algum ponto do caminho, sua carreira é interrompida, invisibilizada ou apropriada por estruturas sociais, familiares ou organizacionais que impedem o pleno reconhecimento de sua capacidade profissional.
É a partir dessa reflexão que venho desenvolvendo, no âmbito do Instituto Construa - Projeto Mulheres Que Constroem, o conceito de feminicídio corporativo.
Feminicídio corporativo designa o processo social e institucional pelo qual trajetórias profissionais das mulheres são interrompidas, invisibilizadas ou apropriadas, resultando na negação da autonomia, da autoria e do reconhecimento profissional das mulheres no mundo do trabalho.
No Instituto Construa, essa discussão está inserida nas iniciativas voltadas à autonomia econômica feminina, formação profissional e inserção de mulheres em setores produtivos, especialmente em áreas onde historicamente a presença feminina ainda enfrenta barreiras estruturais.
O conceito busca dar nome a um fenômeno recorrente, porém pouco identificado: a interrupção, invisibilização ou apropriação de trajetórias profissionais das mulheres.
O feminicídio corporativo pode se manifestar em diferentes momentos da vida profissional de uma mulher.
Pode acontecer antes mesmo do início de uma carreira, quando mulheres são desencorajadas ou impedidas de exercer sua formação ou vocação profissional.
Pode ocorrer durante o desenvolvimento da trajetória, quando seu trabalho é apropriado, invisibilizado ou quando sua liderança é sistematicamente deslegitimada.
Cabe destacar, especialmente no momento de consolidação profissional, quando barreiras institucionais ou relações de poder bloqueiam o reconhecimento, a autonomia ou a construção de patrimônio profissional.
Essa reflexão também nasce de minha experiência acumulada ao longo de quarenta anos de atuação nos setores privado, público e terceiro setor, iniciada aos 21 anos de idade.
Recém-formada, vivi uma situação que hoje consigo identificar com mais clareza à luz desse conceito. Naquele momento, fui impedida de exercer minha própria profissão e direcionada a trabalhar no empreendimento familiar de meu então marido.
Embora tivesse assumido, na prática, a gestão e a condução estratégica do negócio — que saiu de uma pequena padaria localizada em uma favela do Recife para se transformar em uma rede com três unidades —, minha atuação não podia ser formalmente reconhecida.
Eu trabalhava, geria, empreendia e inovava o negócio, mas não podia existir profissionalmente.
Durante muitos anos, histórias como essa foram tratadas apenas como questões privadas ou familiares. Hoje sabemos que elas fazem parte de uma dinâmica estrutural que afeta milhares de mulheres em diferentes setores da economia.
Em certa medida, essa dinâmica dialoga com reflexões clássicas sobre as formas difusas de exercício do poder nas instituições. Em Microfísica do Poder, Michel Foucault demonstra como relações de poder se manifestam de maneira capilar nas estruturas sociais e organizacionais, muitas vezes sem que sejam explicitamente percebidas. No ambiente corporativo, esses mecanismos podem produzir processos silenciosos de invisibilização ou interrupção de trajetórias profissionais femininas.
Atualmente, além da presidência do Instituto Construa, atuo como diretora de desenvolvimento e projetos no Instituto Saga, organização dedicada ao fortalecimento de setores econômicos e do terceiro setor, atuando na articulação institucional, fortalecimento da governança e nas relações governamentais para empresas privadas nos setores de infraestrutura, transporte e logística. Essa experiência transversal entre setor privado, setor público e terceiro setor reforça uma constatação: a autonomia econômica feminina ainda enfrenta barreiras silenciosas que muitas vezes passam despercebidas.
Dar nome a esses fenômenos é um passo importante para enfrentá-los.
O conceito de feminicídio corporativo, que venho desenvolvendo nas reflexões do Instituto Construa, busca justamente ampliar esse debate e provocar uma reflexão necessária:
Quantas trajetórias profissionais femininas foram e são interrompidas antes mesmo de serem reconhecidas?
Quantas mulheres trabalham, lideram, empreendem e ainda assim permanecem invisibilizadas?
Talvez esteja na hora de ampliar o debate sobre violência contra a mulher para além do espaço doméstico e observar também as estruturas econômicas, em que muitas trajetórias profissionais femininas ainda são silenciosamente apagadas — justamente em um momento histórico de maior presença das mulheres nos espaços corporativos e de poder.
Nomear o problema é sempre o primeiro passo para transformá-lo.
Dar nome ao que permaneceu invisível durante muito tempo não resolve o problema por si só — mas inaugura o caminho para enfrentá-lo.
Edna Claudino Diniz
Presidente do Instituto Construa.
Idealizadora do conceito de Feminicídio Corporativo