A euforia da assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul, que segundo o CNI (Confederação Nacional da Indústria) aumentaria o acesso brasileiro ao mercado global de bens pode saltar de cerca de 8 % para 36 %, acabou ofuscada pela votação do Parlamento Europeu que enviou o texto do acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) para obter um parecer jurídico sobre a conformidade dele com os tratados do bloco. Essa movimentação suspendeu temporariamente o processo de ratificação do acordo, frustrando os países sul-americanos.

O presidente Lula, líder do Mercosul em 2025, utilizou muito de sua influência política para que houvesse a assinatura e tinha na parceria uma das grandes bandeiras para as eleições desse ano. O especialista em comércio exterior Jackson Campos explica que o bloco sul-americano aceitou muitas mudanças no acordo que são negativas para conseguir avançar.

"Lula usou muito poder político para tentar fechar o acordo e dar início a integração comercial, mas não deve se expor mais por esse assunto agora que aconteceu esse entrave. É ano de eleição e as movimentações dele serão extremamente estratégicas. Além disso, houve algumas mudanças no acordo que não favoreceram o Brasil e os outros países da América do Sul, mas que foram aceitas porque ainda sim era vantajoso avançar. Para ele não resta mais nada além de esperar a decisão europeia", explica o especialista.

O prazo estimado para a manifestação do Tribunal de Justiça da União Europeia empurra qualquer desfecho concreto para além de 2026 e recoloca o acordo em um limbo institucional que tende a esfriar expectativas no curto prazo. Embora o envio ao TJUE não signifique rejeição automática, o simples fato de submeter o texto a um escrutínio jurídico adicional revela as tensões internas do bloco europeu e a dificuldade de conciliar interesses comerciais com exigências ambientais regulatórias e políticas domésticas de seus Estados membros.

Para o Mercosul o atraso tem custo direto porque posterga ganhos tarifários previsibilidade regulatória e decisões de investimento associadas ao acesso preferencial ao mercado europeu. Jackson Campos avalia que o episódio expõe uma assimetria estrutural na relação entre os blocos.

"A União Europeia opera com maior margem política e institucional para postergar decisões enquanto o Mercosul depende desses acordos para ganhar escala competitividade e previsibilidade externa. O envio ao TJUE mostra que o debate europeu extrapola o comércio e se insere em disputas internas sobre soberania regulação e pressão de grupos setoriais. Isso gera um descompasso de expectativas com a América do Sul que olha o acordo como vetor de desenvolvimento e não apenas como instrumento político. Essa diferença de leitura ajuda a entender por que o processo avança e recua com tanta facilidade. Enquanto a Europa pode se dar ao luxo de esperar o Mercosul sente o impacto do atraso em decisões de investimento exportação e planejamento produtivo", afirma Campos.

Apesar do cenário adverso Campos pondera que o acordo não perde sua importância estratégica no médio e longo prazo. Ele destaca que o simples fato de o texto estar pronto e formalmente assinado cria um marco que terá mais dificuldade para ser descartado pela União Europeia. O desafio passa a ser gerenciar expectativas e evitar que a frustração se traduza em paralisia na agenda externa do Mercosul. Para o especialista o bloco precisa manter uma estratégia ativa de diversificação de parceiros comerciais e não condicionar sua política externa exclusivamente ao desfecho europeu.

"Esse atraso não invalida o acordo nem o torna irrelevante. Ele apenas reforça que o Mercosul não pode apostar todas as fichas em uma única negociação. O mundo do comércio exterior exige múltiplas frentes diálogo constante e capacidade de adaptação. Temos conversas avançando com países asiáticos, que se tornaram uma boa opção para nós. Quem ficar esperando uma decisão externa corre o risco de perder espaço em outros mercados que seguem avançando", diz Campos.

Fica para o bloco sul-americano o desafio de transformar o período de espera em tempo de preparação interna, para fortalecer sua infraestrutura logística harmonização regulatória e competitividade produtiva. Para a União Europeia a decisão colocará à prova sua disposição de conciliar discurso ambiental regulatório e abertura comercial em um cenário global cada vez mais fragmentado.

"Esse intervalo não precisa ser improdutivo. Ele pode e deve ser usado para enfrentar gargalos logísticos que ficam ainda mais evidentes quando o comércio cresce. Investimentos consistentes em ferrovias rodovias e portos mais modernos são decisivos para transformar acordos comerciais em ganhos reais de competitividade. Sem essa preparação estrutural parte relevante dos benefícios simplesmente se perde antes de o produto chegar ao mercado de destino", conclui Jackson Campos.

Saiba mais sobre Jackson Campos: atua com comércio exterior e relações governamentais há anos, o que o coloca em posição de destaque para abordar quaisquer desdobramentos relacionados à importação, exportação e comércio exterior. Campos também é embaixador da Logcomex, além de professor de logística internacional e produtor de conteúdo para o mercado de comércio exterior. 

O especialista possui facilidade em explicar todos os processos e etapas que fazem parte do ciclo de vida de um determinado produto, desvendando dados, estatísticas e revelando os percalços do comércio exterior.

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