CRÔNICAS CHAGAS
Existem feridas de complexa cicatrização. No entanto, também existem as que são cultivadas para obter vantagens.
A obra “O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo, é um clássico da literatura universal que já rendeu filmes memoráveis, a começar pelo de 1939, estrelado por Charles Laughton (Quasímodo), Maureen O’Hara (Esmeralda), Cedric Hardwicke (o terrível Frollo) e Edmond O’Brien (Pierre Gringoire).
Nele, a cena em que Quasímodo salva Esmeralda do cadafalso, saltando com o auxílio de uma corda, e a leva ao templo, aonde clama: “Santuário!”, é uma das mais emocionantes e vibrantes da Sétima Arte, em minha opinião.
Mas outra coisa marcante nessa obra é a menção ao “Pátio (ou Corte) dos Milagres”, local da Paris medieval em que as cegueiras, feridas e outras deficiências que davam sustento aos mendigos eram “magicamente” curadas. No caso, eram mentiras oportunistas que exploravam a boa-fé de quem lhes dava esmolas.
Além dessas aparências, também havia os que cultivavam chagas reais como meio de vida. Ainda há, infelizmente, e por múltiplos motivos.
Curar certas feridas não interessa aos que tiram proveito delas. Quando se trata de feridas espirituais ou psicológicas, sobretudo as associadas a perseguições, torturas, frustrações ou perdas, elas podem extrapolar o “ferido”, transformando-se em chagas coletivas.
Pais que sofreram na infância devem transferir seus medos e frustrações aos filhos?
Religiosos, professores e políticos que sofreram por conta de suas crenças e ideologias, ou foram discriminados por qualquer motivo que não mais existe, têm o direito de impô-las a seus seguidores, alunos ou eleitores? Têm o direito de reescrever a história ou de se servir de mazelas passadas, perpetuando-as em nome de interesses pessoais ou sectários, perseguindo ou assolando quem não comunga de suas ideias ou se recusa a ser usado como massa de manobra?
Quem faz isso não quer a cura de doenças ou a cicatrização de feridas! Prefere mantê-las crônicas e corroídas em proveito próprio. No entanto, fora desse cenário, também têm os seus “pátios de milagres”, em que os discursos de vitimismo, ódio ou rancor se transformam em vantagens pessoais, geralmente pagas com o que é tirado de outros, de boa ou má-fé.
A humanidade evoluiu na exata medida em que superou conflitos, e não pela perpetuação deles.
A frase de autoria incerta: “Numa guerra, a primeira vítima é a verdade”, sintetiza como narrativas dominam conflitos ou camuflam as verdadeiras intenções de seus protagonistas.
Estes usam da doutrinação, do ufanismo, do “canto de sereia”, de falsos heróis e de “flautistas de Hamelin”, para tirar proveito do desespero de gentes e da pureza e ingenuidade dos jovens, incitando-os a lutarem e, até, morrerem por suas “bandeiras”, manipulados como peças descartáveis de um projeto de poder.
Ainda que vitoriosos, as feridas e chagas resultantes tornarão crônicos os desejos de vingança ou de tirar proveito vitimista das circunstâncias. Isso inclui eternizar culpas e contas a pagar por gerações. Além disso, a forma como o poder passará a ser mantido ensejará novos conflitos e tensões constantes, às vezes combatidas com os mesmos meios que motivaram as revoltas. É um círculo vicioso!
Nossos jovens precisam estar preparados para buscarem um futuro melhor para a humanidade. Para tanto, não podem ser condicionados a crerem que são culpados por erros do passado, sofrerem pelo que não viveram, ou serem instados a repetirem o que não deu certo, em nome de profetas do caos e da desavença, os que verdadeiramente tiram proveito dos males do mundo.
Os “milagres” e “utopias” que tentam impor nada mais são do que um atestado de que suas vidas têm sido devotadas a ideias e propósitos que nunca fizeram bem aos outros. Milhões tiveram suas vidas destruídas ou ceifadas, com efeitos que transcenderam suas gerações, perpetuando esse holocausto mantido por insanos e seus sequazes.
Esses hipócritas maliciosos não buscam a evolução da humanidade, mas sua decadência em proveito próprio.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras



