Joseph de Maistre (1753-1821), pensador francês, afirmou: “Cada povo tem o governo que merece”.
Ele defendia a monarquia hereditária e a autoridade religiosa em assuntos políticos quando a maioria do povo não era educada para pensar, mas doutrinada a obedecer, época em que roubar um pão para alimentar um filho era punido com anos de trabalhos forçados. Enquanto isso, a nobreza de “divina ascendência” gastava fortunas em festas e futilidades, totalmente alheia ao povo.
“Que comam brioches!” …
O tempo passou e a autoridade estabelecida, defendida por Maistre, deixou de ter cunho “divino” para, na democracia, se alternar, pela força do voto. O povo deixou de ter o governo que merecia para eleger quem o governaria.
No entanto, a prática demonstrou que um político eleito com base num discurso sintonizado com os anseios do eleitor pode exercer seu mandato negando tudo o que prometeu. E ainda pode ser reeleito!
Então, Maistre está certo: o povo merece o governo que elege?
Pois bem, o que se vê na política brasileira é que os eleitos são sempre os mesmos políticos ou seus herdeiros, parentes ou afilhados.
Nada contra defender seus ideais. Porém, há um limite para "fins" que justificam os "meios", sobretudo quando os "meios" são ilícitos e os "fins" raramente são justos.
A monarquia hereditária foi substituída pela “tradição familiar” ou pelo monopólio dos partidos, todos com seus “donos”. A autoridade religiosa, inclusive em questões políticas, deu lugar à idolatria a mitos políticos, sustentados por legiões de seguidores, fanatizados desde a infância, prontos a cometer insanidades e subverter a ordem por seus líderes, estando certos ou errados.
Aliás, a noção de certo e errado, e de moral e ética, hoje adquiriu tal flexibilidade, que até Maquiavel e Engels ficariam horrorizados.
Tudo é válido e permitido! “É proibido proibir” se for “para o bem do povo e felicidade geral da nação”, na lógica egocêntrica e maniqueísta dos que creem que “o Estado sou eu”!
Também existe absolutismo nessa democracia.
O cenário político atual é emblemático do nível abissal da política brasileira: o que se vê nos discursos, na mídia e nas redes sociais é demagogia e apologia velada ou explícita da desonestidade, da corrupção e da improbidade.
A cada novo escândalo surgem manifestações de solidariedade aos envolvidos. Cada nova denúncia é respondida com outra, não para condenar ambas, mas para exigir “isonomia”: o direito de cometer os mesmos erros e crimes e sair impune.
Nessa lógica absurda, que o voto não consegue mudar, cada um que se opõe é imediatamente elevado à condição de herói, “salvador da pátria”. Mas não tarda muito a ser alvo de ataques e achaques, pois sua credibilidade precisa ser "destruída" para preservar o status quo.
Parece que a política brasileira não quer se emendar, e que, do jeito que está, é perfeita.
Então, o povo tem o governo que merece?
É preciso pensar sobre isso, pois triste é o povo que precisa ou aceita ser liderado por caudilhos, mistificadores carismáticos ou "revolucionários" megalomaníacos que se consideram infalíveis, inquestionáveis e insubstituíveis, alardeando terem ascendência divina ou uma “missão histórica”, e fazem de tudo para manter o poder.
Povos assim serão eternamente escravos de suas escolhas!

