DOCÊNCIA COMO COMPROMISSO
Parei de lecionar em 2021 por problemas de saúde que exigiram redução de minha carga de trabalho e, principalmente, por minha índole. Tanto é que, por ter assumido três orientações de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) no segundo semestre de 2020, mantive esse acompanhamento no semestre seguinte, já sem lecionar.
Como professor universitário desde 1990, acostumei-me a atender alunos antes e depois das aulas, o que também valia para intervalos. Até em fins de semana isso ocorria, mesmo antes do e-mail dos professores ser disponibilizado aos alunos em plataformas digitais das universidades.
Como professor, confesso que houve dias em que detestei minha atuação, da mesma forma os comemorei como um título de campeonato, principalmente quando saíam da rotina pedagógica, partindo de alunos instigantes, interessados em ir além do conteúdo das disciplinas.
Isso ocorria particularmente no caso das orientações de TCC.
Numa das instituições onde lecionei, quando alunos me pediam para orientá-los, primeiro eu avaliava o tema, para verificar se outro docente seria mais adequado. No entanto, quando o tema era inusitado, até fora do âmbito das minhas disciplinas, meu interesse era ainda maior, pois eu aprenderia junto com os alunos, compartilhando pesquisas e opiniões.
Depois de um tempo, vários alunos passaram a me procurar por conta desse perfil. Na época, os professores eram remunerados por orientação, e isso passou a incomodar outros docentes a ponto da direção do curso restringir em, no máximo, duas por professor.
Isso não impediu alunos de me procurarem para, informalmente, colaborarem em suas pesquisas.
Lembro de uma aluna que me procurou aos prantos, depois de seu orientador dizer que aceitava a função, mas em nada poderia colaborar, pois não entendia nada do tema proposto.
Eu e um colega a ajudamos e seu TCC foi muito bem avaliado pela banca. Seu orientador, ao menos foi honesto em esclarecer aos presentes que não havia colaborado em nada na pesquisa. Só esqueceu de dizer que foi remunerado pelo que não fez.
Outros alunos também me procuraram em busca de apoio “paralelo”, o que me obrigava a ter cauteloso para não melindrar colegas.
Um cuidado que eu tinha, como orientador ou membro de banca examinadora, era questionar e sugerir sem constranger. Comentários sobre ortografia e afins eram anotados no material impresso e entregues aos alunos, complementados pessoalmente, após o encerramento dos trabalhos.
Não foi o caso de um professor da banca de um de meus orientandos, que passou a criticar falta de vírgulas no texto, tendo pais e parentes do aluno na sala. Quando ele caiu em si do tom inadequado e exagerado de sua manifestação, ele, contrariando até o tom crítico que vinha adotando, deu nota 9,0 ao trabalho.
Que eu me lembre, nunca orientandos meus tiveram nota inferior a 9,0.
Um caso emblemático foi quando o diretor de um curso me procurou, perguntando se eu poderia assumir a orientação de um aluno faltando um mês para a apresentação de sua pesquisa. O professor havia abandonado a orientação, criticando o empenho e resultados apresentados pelo aluno.
De fato, o aluno era complicado. Eu já tivera um episódio com ele, que demonstrava isso.
Aceitei, na tentativa de não prejudicar sua graduação e, também, porque o tema: Túnel Santos-Guarujá, me interessava. O ano era 2000.
Tive uma conversa séria com ele, o trabalho foi retomado e, passado um mês, ficou pronto.
O aluno, após a apresentação, recebeu um 9,0!
Orientação de TCC é uma enorme responsabilidade para o aluno e, sobretudo, para o orientador! Por conta disso, creio que a reprovação de um TCC numa apresentação para banca é um constrangimento para o orientador. Se a qualidade não era boa, ele jamais deveria permitir que fosse apresentado!
Mantive essa premissa na instituição em que encerrei minha atividade docente. Nela, a orientação de TCC não era remunerada, uma regra bem clara desde o início.
Desde 2009, quando passei a integrar grupos de pesquisa na área de portos e afins, passei a propor temas nesse âmbito. Os alunos que me procuravam sabiam que teriam um desafio pela frente, mas que eu os acompanharia nas pesquisas e conclusões, além de ter um cuidado especial para que os textos ficassem claros, do ponto de vista técnico e, tanto quanto possível, literário.
Discussões não faltaram, com direito a alguns “puxões de orelhas”. Textos, referências e citações precisaram ser revisados, sem falar na preocupação com o risco de plágio. Infelizmente, o nível dos Ensinos Fundamental e Médio tem sido tão prejudicado que, mesmo sem o uso de ferramentas de verificação de plágio, fica bastante claro quando um texto é uma cópia.
Lembram-se dos três últimos TCCs que orientei?
Bem, sempre tive por hábito deixar os outros membros da banca se manifestarem primeiro e sugerirem as notas.
Um dos grupos tinha me dado muito trabalho até a última revisão do texto. Minha preocupação era como eles fariam a apresentação, esteticamente e oralmente.
Os três trabalhos receberam nota dez, coroando meu “canto de cisne” docente!
Aquele grupo foi brilhante na apresentação e, após os elogios dos outros dois membros da banca, eles olharam para mim, aguardando minha manifestação.
Olhei para eles e resumi minha avaliação e estado de espírito numa única frase: “Eu estou muito feliz!”
Eles sorriram e responderam: “Nós também!”
Docência é um compromisso com as disciplinas lecionadas, mas, muito mais do que isso, com o futuro dos alunos.
Não à toa, alguns a definem como um sacerdócio, uma profissão de fé no porvir, um ser caminho e não obstáculo.
Houve dias em que saí da sala com a “alma lavada” por um bom desempenho. Noutros, detestei minha atuação. Mas nunca usei de minha ascendência para doutrinar ou impor minhas crenças em vez de ensinar as matérias.
Por acreditar nesse sacerdócio, creio que alguns não deveriam nem merecem usar essa “batina”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras



