Novo abastecimento poderá movimentar volume 12 vezes superior ao da primeira operação realizada no complexo santista e reforçar a posição do Brasil no mercado de combustíveis marítimos renováveis
O Porto de Santos prepara um novo salto na transição energética da navegação. Depois de realizar o primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres transoceânico com etanol no Brasil, o complexo portuário poderá receber uma nova operação com volume de até 6 mil toneladas do biocombustível.
Caso confirmado integralmente, o abastecimento será 12 vezes maior do que o realizado em julho, quando foram transferidas aproximadamente 500 toneladas de etanol para o navio CMA CGM Iron. Mais do que um aumento de volume, a nova operação poderá representar a passagem de uma experiência pioneira para uma cadeia de fornecimento em escala comercial.
Ainda não foram divulgados todos os detalhes sobre o próximo abastecimento, como nome da embarcação, data da operação e empresas responsáveis pelo fornecimento do combustível.
Primeira operação abriu caminho
O marco inicial ocorreu em 12 de julho, no terminal de contêineres da Santos Brasil, no Guarujá. O CMA CGM Iron, porta-contêineres com capacidade para 13 mil TEUs, recebeu cerca de 500 toneladas — aproximadamente 635 mil litros — de etanol.
A embarcação é equipada com motor tricombustível certificado para operar com combustíveis convencionais, metanol e etanol. O navio é o primeiro de uma série de 12 unidades de 13 mil TEUs encomendadas pela CMA CGM com essa tecnologia.
A operação reuniu diferentes elos da cadeia logística. A Copersucar forneceu o etanol; a AGEO Terminais respondeu pela armazenagem; a Bunker One coordenou o abastecimento por meio de barcaça especializada; e a Santos Brasil disponibilizou a infraestrutura portuária. A fabricante Everllence participou do desenvolvimento e da certificação da tecnologia de propulsão.
O combustível saiu da origem produtora, foi transportado até Santos, armazenado em estrutura dedicada e transferido para a embarcação. O processo exigiu planejamento específico, protocolos internacionais de segurança e treinamento das equipes envolvidas.
Próxima operação muda a escala
O avanço para até 6 mil toneladas altera o patamar logístico do projeto. Uma operação dessa dimensão exige maior capacidade de armazenagem, disponibilidade de barcaças, integração com os terminais de granéis líquidos e coordenação entre fornecedores, armadores, autoridade portuária e órgãos reguladores.
O desafio não está apenas em entregar o combustível, mas em criar regularidade. Para que Santos se consolide como um polo de abastecimento renovável, será necessário oferecer previsibilidade, segurança operacional e disponibilidade do produto nas escalas dos navios.
A Bunker One já informou que mantém conversas com grandes armadores internacionais interessados em operações semelhantes. Segundo a companhia, empresas asiáticas solicitaram informações sobre a origem do etanol, o percurso logístico e as certificações de qualidade. Os nomes das companhias envolvidas nas negociações permanecem sob confidencialidade.
Vantagem brasileira
O Brasil reúne condições estratégicas para ocupar espaço no mercado de combustíveis marítimos de menor intensidade de carbono. O país possui produção de etanol em larga escala, infraestrutura de armazenagem e distribuição e proximidade entre as regiões produtoras do Centro-Sul e o Porto de Santos.
Essa combinação pode transformar o complexo santista em uma ponte entre a produção brasileira de energia renovável e os navios que operam nas principais rotas internacionais.
A CMA CGM projeta operar aproximadamente 200 porta-contêineres capazes de utilizar energias de baixo carbono até 2031. A ampliação dessa frota tende a criar uma demanda crescente por portos preparados para fornecer combustíveis alternativos.
Porto entra na disputa pelo combustível do futuro
A realização de um abastecimento com até 6 mil toneladas poderá colocar Santos em um grupo ainda restrito de portos capazes de fornecer etanol em grande escala para a navegação oceânica.
Entretanto, uma operação isolada não estabelece um novo mercado. O verdadeiro avanço ocorrerá quando o abastecimento deixar de ser excepcional e passar a integrar regularmente a cadeia de serviços do porto.
Santos já demonstrou capacidade técnica para realizar a operação. Agora, o desafio será transformar pioneirismo em frequência, escala e vantagem competitiva. Se isso acontecer, o maior porto da América Latina poderá se tornar também uma das principais referências do Atlântico Sul em bunker renovável.
Da Redação — Jornal Portuário
