Ao buscar músicas para ouvir, deparei-me com uma gravação belíssima de “Filho de Rei”, de Mateus Aleluia, um cantor, compositor, violonista e pesquisador brasileiro cuja obra ocupa um lugar singular na música afro-brasileira.
Entre o violão e a percussão, surgiu um canto em iorubá que, num primeiro momento, soou como um sussurro misterioso. Aquela experiência me fez pensar na nossa incansável corrida por novos idiomas. Estudamos inglês, espanhol e tantas outras línguas, e isso é ótimo. Eu mesmo trilhei esse caminho. O curioso é que raramente nos ocorre voltar os ouvidos às línguas que ajudaram a moldar a cultura brasileira e que, embora presentes em nossa música, religiosidade e vocabulário cotidiano, permanecem ausentes da memória coletiva.
Há aí uma ironia digna de nota. Buscamos o sotaque perfeito para reuniões internacionais, enquanto ignoramos os sons que atravessaram o Atlântico e floresceram em solo brasileiro.
Não se trata de trocar uma língua por outra, nem de rejeitar o aprendizado global. Trata-se de ampliar o horizonte: reconhecer que aprender também pode ser um ato de reconciliação histórica. Talvez a verdadeira sofisticação cultural não esteja apenas em pronunciar impecavelmente o inglês, mas em admitir que a nossa herança linguística é mais vasta do que imaginamos.
Afinal, que país é este que conhece os verbos irregulares de outra nação, mas mal reconhece as palavras do seu próprio hino, ou palavras que embalaram a fé, a resistência e a arte de seus próprios antepassados? O incômodo dessa pergunta talvez seja precisamente o convite de que precisamos para continuar aprendendo desta vez, olhando também para trás.
por: Luiz C Oliveira
Mateus Aleluia | Filho de Rei -
"Filho de Rei" - Mateus Aleluia é cantada em português, mas tem partes em iorubá, que é uma língua de origem africana.


