Dizer que hoje eu não mais escrevo pode soar radical. Mas, ao mesmo tempo, é incrivelmente realista. Quando vasculho a memória, essa gaveta que o tempo insiste em reorganizar, encontro apenas alguns poucos manuscritos, quase sempre curtos, raramente passando de uma página. Lembro-me dos tempos de escola, talvez algum trabalho na universidade. E então percebo: depois disso, quase não escrevi mais.
Hoje somos todos um pouco datilógrafos modernos, digitadores de dedos ágeis, que percorrem teclas com uma naturalidade que não herdamos, mas aprendemos pela força da necessidade. A pergunta que se impõe é: por qual motivo não escrevemos mais?
A verdade é que, ao longo das décadas, o mundo digital assumiu essa tarefa. Desde a segunda metade do século XX, os computadores começaram a ocupar espaço, primeiro tímidos, depois indispensáveis. Mas não podemos confundir: o ato de "teclar" já existia antes, desde as máquinas de escrever do século XIX. O que mudou não foi apenas o instrumento, foi a lógica da comunicação.
A grande virada aconteceu ali pelos anos 1970 e 1980, quando os computadores pessoais passaram a trazer teclados como padrão, transformando o gesto de escrever em um gesto de digitar. Pouco a pouco, nossas mãos foram desaprendendo a caligrafia cotidiana e se adaptando ao ritmo acelerado das teclas.
Mas não quero aqui fazer um tratado histórico. Embora a história seja essencial para entender esse fluxo futurista que nos trouxe até aqui, o ponto central é outro: hoje, eu não mais escrevo porque o mundo não me pede que escreva. Ele exige que eu digite. Ou melhor: exige que eu me expresse, seja como for, desde que seja rápido.
E assim, sem perceber, passamos do papel para o teclado. E do teclado para a tela sensível ao toque. E agora até para o microfone. Hoje, muitas vezes, nem digito mais: compartilho minhas palavras por voz, deixo que a tecnologia as transforme em texto, deixo que ela as conduza a destinos que antes pertenceriam ao envelope e ao selo.
O gesto de escrever uma carta, outrora carregado de pausa, intenção e presença, foi engolido pela urgência digital. Não por incapacidade, mas porque a vida moderna nos adestrou a buscar velocidade e não caligrafia.
Hoje eu não mais escrevo. Hoje eu dit(o), digito, envio, compartilho.
A escrita à mão, que antes era obrigação, virou escolha rara. E talvez, justamente por isso, tão preciosa quando acontece.


