LITO SOUSA
Quando eu era criança, meu pai fez um acordo comigo: toda a vez que eu tivesse média escolar mensal a partir de 9,0, ele me daria um livro.
Fiz uma respeitável coleção, que incluía autores como Mark Twain, Victor Hugo e Jules Verne, entre outros. Eram edições simples, mas, desde cedo, me ensinaram que o conteúdo é muito mais importante do que a estética ou luxo da encadernação, mais ou menos como ocorre com alguns seres humanos.
Um desses livros, “A conquista do espaço” (1968), de Elliot Dooley, junto com algumas séries de TV que eu já acompanhava desde os três anos, Jet Jackson, Thunderbirds, Fireball XL5 e Steve Canyon, fizeram com que eu me apaixonasse pela aviação.
Quando comecei a aprender hinos, na escola, eu, que já estava com jatos e foguetes no imaginário, fiquei frustrado com o Hino dos Aviadores Brasileiros, cujo refrão é: “Contato! Companheiros! Ao vento, sobranceiros, lancemos o roncar da hélice a girar”. Eu o considerava anacrônico. Hoje, com o sucesso do EMB-314 “Super Tucano”, reconheci estar enganado.
Eu desenhava aviões, moldava-os com cabos de vassoura e restos de madeira. Cheguei a fazer uma frota de aviões de papel, com formatos variados. Não precisavam planar. Com um motorzinho elétrico que havia ganho, tentei fazer um aeroplano usando uma lata de óleo como fuselagem. O máximo que consegui foi me cortar, até com certa gravidade. Também tentei fazer um foguete usando álcool como combustível. Quase incendiei o quartinho de ferramentas de meu pai. Consegui apagar o fogo antes que alastrasse.
Eu já tinha a vocação para engenheiro, mas achei melhor mudar de “ares”, quer dizer, de especialidade.
Esse prazer pela aviação me faz sempre assistir filmes sobre o tema, o mesmo valendo para viagens espaciais e ficções científicas associadas.
Fiquei tão encantado por ela que cheguei a sonhar em obter “brevê” antes de carteira de motorista. Até hoje gosto de cantar os “jingles” da Varig (“Estrelas brasileiras, no céu azul…”) e da Vasp (“Atenção! Você, com essa ficha na mão…).
No entanto, só fui viajar de avião aos 25 anos, e logo numa viagem transoceânica, graças a uma bolsa de estudos na Europa.
Infelizmente, as séries sobre aviação foram rareando na TV, rarefeitas como o ar em grandes altitudes. A TV a cabo e, principalmente, o YouTube me deram a chance de encontrar alguns dos filmes e séries que eu tanto gostava, e os algoritmos associados passaram a sugerir produções sobre o assunto.
Foi assim que tive o imenso prazer de conhecer Lito Sousa e seu “Aviões e Músicas”. Ele explicava coisas que não apareciam nos filmes: como funcionavam, a importância de cada item, razões de acidentes aéreos, enfim, um enfoque técnico feito de maneira agradável e objetiva, mesmo quando abordava os temas mais complexos.
Lito não era um “influenciador”, palavra que não gosto, mas um professor de cátedra, tão respeitado que era convidado para outros programas, deixando seus entrevistadores tão interessados quanto eu.
Ele dominava o assunto de forma natural, vivaz, cativante, com conhecimento de causa, como toda a pessoa que ama o que faz e se esmera em conhecer cada vez mais. Seus programas eram apetitosos bate-papos, em que ele adivinhava as perguntas de quem assistia.
Era um prazer assistir seus programas! Aliás, continuarei a assisti-los, sempre que possível.
Por isso, a notícia de sua doença rara chocou a muitos, inclusive a mim. Uma enfermidade terrível alternou momentos de alguma, pouca, esperança com a certeza de que a morte era iminente e consciente.
A despedida de Lito foi de uma tristeza imensa, pois, apesar de dizer que estava preparado para o derradeiro “voo”, creio que ninguém nunca estará, mesmo quando o deseja, por qualquer que seja o motivo.
Os aviões imitaram os pássaros e abriram o caminho para o espaço, que, contrariando o que afirmam na abertura de “Jornada nas Estrelas”, não necessariamente é a fronteira final. Ainda existem outras dimensões a serem exploradas.
Lito provavelmente partiu para uma delas. Pena que não poderá nos contar, do jeito que aprendemos a gostar e admirar, como ela é e funciona.
Por tudo o que viveu e legou, seguramente alçou voo, como diz o hino da FAB: “Para orar ao Cruzeiro do Sul”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras


