A disputa portuária na Região Sul ganhou uma nova dimensão. De um lado, Paranaguá avança com obras ferroviárias, novos arrendamentos e a concessão do canal de acesso. Do outro, terminais privados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul preparam projetos bilionários para conquistar parte das cargas agrícolas, industriais e conteinerizadas que circulam pelo corredor sulista.
Mais do que uma competição entre portos, o que está em jogo é a escolha dos embarcadores. Produtores, cooperativas e indústrias procuram menor tempo de espera, acesso terrestre eficiente, disponibilidade de berços e custos logísticos mais previsíveis.
Paranaguá prepara uma resposta estrutural
O Porto de Paranaguá chega a esse novo ciclo apoiado em uma infraestrutura consolidada e em uma carteira de investimentos contratados. Após oito leilões de áreas portuárias e a concessão do canal de acesso, a Portos do Paraná anunciou aproximadamente R$ 5,1 bilhões em investimentos, além de recursos provenientes das outorgas destinados à modernização do complexo.
Uma das principais intervenções é o Moegão, sistema centralizado de descarga ferroviária que ultrapassou 95% de execução. Com investimento superior a R$ 650 milhões, a estrutura deverá elevar a capacidade de recebimento ferroviário de aproximadamente 550 para 900 vagões por dia.
Outra mudança decisiva será a concessão do canal de acesso, com previsão de R$ 1,23 bilhão em aportes ao longo de 25 anos. O contrato prevê dragagem, sinalização, manutenção da infraestrutura aquaviária e ampliação progressiva do calado para até 15,5 metros, permitindo a operação de navios maiores e mais carregados.
Os novos arrendamentos também ampliam a capacidade para granéis vegetais. Somente os terminais PAR14, PAR15 e PAR25 representam mais de R$ 2 bilhões em compromissos de investimentos privados. O PAR14, arrematado pelo BTG Pactual Commodities Sertrading, prevê aproximadamente R$ 1,2 bilhão em aportes, incluindo participação na implantação da primeira etapa do novo Píer em “T”.
Santa Catarina mira cargas que hoje passam pelo Paraná
A pressão competitiva mais direta poderá vir de Itapoá, no Norte catarinense. A Coamo, cooperativa paranaense que já mantém operações em Paranaguá, anunciou a implantação de um novo Terminal de Uso Privado na Baía da Babitonga.
O empreendimento está projetado para ocupar aproximadamente 43 hectares, receber três berços de atracação e movimentar até 11 milhões de toneladas por ano. O investimento inicialmente anunciado chega a R$ 3 bilhões, com previsão de entrada em operação no início da próxima década.
O movimento merece atenção porque a própria Coamo escoa perto de 5 milhões de toneladas anuais por seus terminais em Paranaguá. A futura instalação catarinense deverá trabalhar com grãos, fertilizantes, combustíveis, granéis líquidos e GLP, oferecendo à cooperativa uma rota própria e reduzindo sua dependência de estruturas compartilhadas.
Santa Catarina também amplia a capacidade da Baía da Babitonga. A dragagem para aprofundar o canal de 14 para 16 metros permitirá receber navios de até 366 metros e aproximadamente 16 mil TEUs. Parte relevante do investimento foi antecipada pelo Porto Itapoá, terminal privado especializado em contêineres.
Além do novo TUP da Coamo, a região já reúne o Porto Itapoá, a Portonave e o Terminal Graneleiro de Santa Catarina, formando um conjunto de instalações públicas e privadas capaz de disputar contêineres e granéis com os complexos vizinhos.
Rio Grande do Sul abre nova frente
No Rio Grande do Sul, a expansão está ligada principalmente à cadeia da celulose. O projeto industrial da CMPC motivou a implantação de dois Terminais de Uso Privado, localizados em Rio Grande e Barra do Ribeiro, com investimentos portuários estimados em cerca de R$ 1,4 bilhão.
O terminal de Rio Grande poderá movimentar até 9 milhões de toneladas por ano, armazenar aproximadamente 194 mil toneladas e operar dois navios simultaneamente. O contrato de adesão foi assinado em janeiro de 2026, enquanto o empreendimento segue cumprindo as etapas do licenciamento ambiental.
O estado também discute uma concessão integrada dos canais portuários e de trechos hidroviários, com previsão de R$ 134 milhões em investimentos diretos. A proposta busca garantir manutenção permanente da navegabilidade e maior previsibilidade às operações.
A carga escolherá o caminho mais eficiente
A nova competição não será decidida apenas pelo tamanho dos portos. O embarcador avaliará toda a cadeia: disponibilidade de berços, profundidade do canal, ligação ferroviária e rodoviária, tempo de espera, produtividade e custo final do transporte.
Paranaguá mantém escala, tradição e forte conexão com o agronegócio. Santa Catarina avança com terminais privados especializados e canais mais profundos. O Rio Grande do Sul aposta na integração entre indústria, hidrovia e porto.
Nesse novo tabuleiro, as divisas estaduais perdem importância. A carga seguirá para o corredor que oferecer maior confiabilidade e menor custo. Para os portos do Sul, investir deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento: tornou-se uma condição para permanecer competitivo.
Da Redação — Jornal Portuário