A chuva forte não parou a operação. A água escorria pelas paredes do navio e atravessava o convés como um riacho em busca de um lugar para escoar. Senti os pés gelados dentro da botina e me arrependi de não ter pego uma galocha.

Pegar chuva na saída era uma coisa. Permanecer seis horas com a roupa molhada era outra e, provavelmente, terminaria em um resfriado. De pé, encolhida no único lugar do convés onde ainda não chovia, embaixo da baleeira, observava o cais repleto de caminhões enfileirados aguardando sua vez de descarregar. Enquanto isso, os trabalhadores passavam os cabos na lingada seguinte de toras de madeira.

Na minha experiência, aquela era uma das cargas mais perigosas que já havíamos recebido. Por serem irregulares, as toras exigiam que os cabos fossem distribuídos com muito cuidado para manter a carga suspensa equilibrada. Ainda assim, nem sempre permaneciam completamente presas, e não eram raras as ocasiões em que alguma delas se soltava e caía sobre o cais.

Além disso, quando molhada, a madeira se tornava extremamente escorregadia e dificultava o deslocamento dos trabalhadores no porão para desengatar a lingada. Muitos sofreram quedas. Perdemos um colega em um acidente como aquele. Foi só depois disso que surgiu uma solução simples, mas eficaz: um conjunto de garras acopladas às botas, capaz de aumentar significativamente a aderência sobre a madeira.

Mas a madeira escorregadia não era a única coisa que me preocupava. Desde o curso de formação, antes mesmo de ingressarmos no porto, aprendemos a identificar situações de perigo. Os princípios da segurança parecem gravados na memória: não caminhe sob carga suspensa; não permaneça na área de giro do guindaste; use sempre os corrimãos; circule pelas rotas seguras; mantenha distância das amarras da embarcação e da borda do cais. Em um porto, basta olhar ao redor para perceber que os riscos estão por toda parte.

O tempo nos ensina a enxergá-los quase automaticamente. Mas nem todos os perigos podem ser vistos. Alguns atingem o trabalhador sem deixar qualquer ferimento aparente. Foi convivendo com esses riscos que compreendi que segurança não se resume à prevenção de acidentes.

Até então, acreditava que identificar riscos físicos, utilizar corretamente os equipamentos de proteção e seguir os procedimentos operacionais eram suficientes para garantir um ambiente seguro. Com o tempo, porém, percebi que nem todos os riscos estavam na área operacional, nos porões dos navios ou no cais. Alguns deles sequer podem ser vistos.

Ainda assim, comprometem a saúde física e mental, deixam marcas profundas e, em casos extremos, podem custar vidas. Não demorei para descobrir isso da forma mais difícil. Ao longo da minha trajetória, vivi situações de assédio no ambiente portuário. Eu sabia como agir diante de uma carga suspensa, conhecia os procedimentos para uma emergência e identificava praticamente todos os riscos físicos da operação. Mas não fazia ideia de como agir quando o perigo vinha do comportamento de outra pessoa.

Foi então que compreendi que existiam riscos para os quais eu nunca havia sido preparada, e que nenhum equipamento de proteção ou procedimento operacional resolvia sozinho. Na prática, faltavam protocolos de acolhimento, fluxos de atendimento e mecanismos institucionais capazes de proteger o trabalhador quando o risco vinha do comportamento de outra pessoa.

Essa experiência mudou profundamente a minha forma de enxergar a Segurança e Saúde no Trabalho. Durante décadas, a segurança concentrou seus esforços na prevenção de acidentes físicos. Era preciso controlar máquinas, equipamentos, cargas suspensas, produtos perigosos e tantas outras fontes de risco presentes nas operações portuárias. Esses avanços salvaram vidas e continuam sendo indispensáveis. A experiência que vivi não era um caso isolado.

Ela fazia parte de uma transformação mais ampla na forma como o mundo passou a compreender a Segurança e Saúde no Trabalho. Hoje compreendemos que proteger um trabalhador também significa protegê-lo do assédio, da violência, da discriminação, do medo de denunciar e de outras situações capazes de comprometer sua saúde mental e sua dignidade. Mas isso é uma mudança recente que ainda está acontecendo.

Esse movimento internacional já era defendido por organismos como a OIT e a OMS, em convenções como a OIT nº 190 (2019) e normas como a ISO 45003 (2021), que afirmavam que ambientes de trabalho seguros também precisam prevenir o assédio, a violência e outros riscos psicossociais. No entanto, quando comecei a conversar sobre isso no porto de Imbituba, em 2021, ainda não tínhamos o caminho institucional definido nas leis nem nas NRs para tratar os casos de assédio no ambiente de trabalho.

No Brasil, essa tendência começou a aparecer em 2022, quando a Lei 14.457 incluiu a prevenção ao assédio entre as atribuições da CIPA (e, por extensão, da CPATP). Depois, em 2024, veio a atualização da NR-1, que passou a exigir o gerenciamento dos riscos psicossociais de forma mais ampla. Mais do que uma alteração normativa, ela representa o reconhecimento de que a saúde do trabalhador não pode ser dividida entre corpo e mente. Não se trata da criação de um novo tipo de risco, mas do reconhecimento de que esses riscos sempre existiram e também precisam ser gerenciados. O risco da tora se via.

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O risco do silêncio, não. Ele surge aos poucos, na omissão, na cultura que evita o assunto. Por isso, exige uma prevenção diferente: mais eficaz quanto antes se começar, como qualquer risco ocupacional. Nenhum acidente acontece por uma única causa. Da mesma forma, um ambiente de trabalho seguro também não é resultado de uma única medida. Ele é construído diariamente por boas normas, processos bem definidos, lideranças responsáveis e uma cultura que valoriza as pessoas. Os riscos físicos continuam existindo e continuarão exigindo atenção permanente.

Mas a segurança do trabalho amadureceu quando passou a reconhecer que nem todo perigo pode ser visto. Alguns dos riscos mais graves caminham ao nosso lado sem deixar marcas aparentes. E ignorá-los também tem um custo. Hoje continuo entrando no porto usando capacete, botina e uniforme de alta visibilidade. Eles continuam sendo indispensáveis.

Mas aprendi que existe um tipo de proteção que nenhum EPI é capaz de oferecer. Essa proteção depende da cultura da organização, da atuação das lideranças e do compromisso das instituições com a dignidade de quem trabalha. Afinal, um porto verdadeiramente seguro não é apenas aquele onde todos voltam para casa sem lesões.

É aquele onde todos voltam para casa inteiros. Imbituba, 01 de julho de 2026.