Você sabia que ele ainda existe no Brasil? Vamos falar sobre isso hj!

Sejam bem-vindos ao sistema que burla leis e compliance.

A transparência dos processos trabalhistas como ferramenta de exclusão, no sistema judicial brasileiro, já nos responde por si só. Como a consulta de processos trabalhistas é um direito público, garantido pela Constituição Federal, que se torna um erro, e estabelece a publicação dos atos processuais como regra geral. Há uma lacuna nessa história que vou explicar hoje para você!

No Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que atende à sua região, qualquer pessoa pode acessar informações sobre ações judiciais por meio do sistema Processo Judicial Eletrônico (PJe) ou do portal oficial do tribunal.

Para consultar um processo basta ter em mãos o CPF do candidato, e a partir daí, basta acessar links como o da consulta processual no site do TRT ou o portal PJe, inserir o número e prosseguir com a busca.

Essa facilidade, no entanto, tem um lado sombrio: o que deveria ser uma ferramenta de transparência se transforma em um mecanismo de "recrutamento velado", em que empresas brasileiras verificam secretamente o histórico judicial de candidatos para rejeitá-los sem explicações.

O que é o Recrutamento Velado e como ele funciona?

O recrutamento velado refere-se à prática, ainda comum em muitas empresas brasileiras, de não seguirem regras claras durante seus processos seletivos. Mesmo que possuam um compliance bem estruturado ou, em português claro, estejam em conformidade com normas e boas práticas, muitas organizações, especialmente seus setores de Recursos Humanos, acabam fugindo à regra.

Essa conduta deixa as empresas vulneráveis, pois o recrutamento velado é uma prática fora dos padrões éticos e legais. Ao realizar consultas ou verificações ocultas sobre candidatos, as empresas ferem direitos garantidos pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) legislação brasileira (Lei nº 13.709/2018) que regula o tratamento de dados pessoais por pessoas físicas e jurídicas, públicas ou privadas, em todo o território nacional.

Tudo isso ocorre sem o consentimento real e explícito do candidato. No momento em que você fornece seus dados pessoais, muitas empresas acreditam ter o direito de utilizá-los livremente. Mas não é bem assim!

No contexto trabalhista brasileiro, isso frequentemente envolve consultas a bancos de dados públicos para identificar se o candidato já moveu ações contra empregadores anteriores. De acordo com especialistas, empregadores acessam certidões de ações trabalhistas ou consultam diretamente o CPF em portais como o do TRT-2 para detectar "riscos" potenciais, como histórico de litígios. Essa prática é comum em grandes corporações, que contratam serviços de background check para investigar o passado dos aspirantes a vagas, incluindo antecedentes judiciais.

Embora a consulta em si seja legal, pois os processos são públicos, salvo em casos de segredo de justiça, o uso dessas informações como critério discriminatório pode configurar abuso. Mas na maioria das vezes o recrutador irá omitir isso.

A legislação brasileira proíbe a discriminação no emprego (artigo 7º da Constituição e CLT), e tribunais já condenaram empresas por criarem "listas sujas" de trabalhadores que processaram ex-empregadores. No entanto, muitas companhias burlam essa etapa ética ao rejeitar candidatos com base em supostos "perfis litigantes", sem admitir o motivo. Discussões em fóruns online, como no Reddit, revelam que profissionais com processos trabalhistas enfrentam barreiras invisíveis no mercado, com empresas evitando contratações para minimizar riscos futuros.

 

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Empresas brasileiras, especialmente em setores como tecnologia e varejo, justificam essas verificações como parte de uma "gestão de riscos", mas críticos argumentam que isso perpetua um ciclo de exclusão. Um trabalhador que processa uma empresa por direitos não pagos, como horas extras ou verbas rescisórias, pode ser visto como "problemático", mesmo que a ação seja legítima. De fato, o número de processos trabalhistas no Brasil é alto em 2024, a Justiça do Trabalho registrou mais de 285 mil ações pedindo reconhecimento de vínculo empregatício, muitas relacionadas à "pejotização" (contratação como PJ para evitar direitos CLT). Isso alimenta o recrutamento velado, onde o CPF se torna uma "marca" indelével.

Como a sua empresa "Frauda" essa etapa?

E não me diga que estão, de acordo com o compliance, pois a justiça está acima disso.

A "fraude" nesse contexto não é necessariamente ilegal, pois estamos no Brasil, não é mesmo, mas sim uma manipulação ética e, por vezes, jurídica. Empresas evitam admitir, e continuam agindo há décadas sem honestidade, e seguem rejeitando candidatos por histórico judicial, alegando "incompatibilidade com o perfil da vaga" ou simplesmente ghosting (sumiço no processo seletivo).

Fontes indicam que grandes firmas realizam background checks extensos, incluindo consultas ao SPC, Serasa e tribunais, para filtrar candidatos. Em casos extremos, como o de uma empresa de recrutamento no Rio Grande do Sul, condenada por manter listas negras, a Justiça do Trabalho impôs indenizações por danos morais coletivos.

Outra forma de burla é a exigência velada de certidões negativas, o que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) já considerou ilegal quando não relacionada às funções do cargo. Projetos de lei, como o que tramita na Câmara dos Deputados, buscam limitar consultas por nome ou CPF em processos trabalhistas para proteger a privacidade dos trabalhadores.

 

No entanto, na prática, empresas continuam acessando esses dados gratuitamente via portais públicos, um erro! Transformando a transparência em ferramenta de exclusão, mas cadê o tal compliance? Trabalhadores relatam dificuldades em conseguir emprego após ações judiciais, com nomes aparecendo em buscas no Google, JusBrasil e outras redes ligadas a processos, que por sua vez vendem esses dados, para faturar milhões. Bem-vindo ao Brasil!

O Papel da Inteligência Artificial no Século XXI: Um "Botão Start" para Rejeições?

No século XXI, o recrutamento velado ganha um aliado poderoso: a inteligência artificial (IA), já discutido em artigo passado. Ferramentas de IA em RH automatizam análises de currículos, entrevistas e background checks, incluindo verificações judiciais. No Brasil, o uso de IA em processos seletivos cresce, mas traz riscos de discriminação algorítmica. O Ministério Público do Trabalho (MPT) alerta que algoritmos podem perpetuar vieses, rejeitando candidatos com histórico de processos trabalhistas ao correlacionar dados como CPF com "riscos elevados".

É exatamente isso que transforma a IA em um "botão start" para o RH dar um "não" automático: sistemas treinados com dados históricos podem excluir perfis "litigantes" sem intervenção humana, reproduzindo desigualdades raciais, de gênero ou socioeconômicas.

"Existe o risco de que muitos profissionais qualificados sejam rejeitados devido a erros em processos seletivos baseados em inteligência artificial (IA). Algumas plataformas podem descartar candidatos automaticamente ao inserirem dados como CPF, utilizando práticas discriminatórias que consideram fatores como idade, cor de pele, gênero, pessoas idosas, egressos de faculdades menos prestigiadas ou trabalhadores que já venceram ações judiciais contra empregadores. Sem uma regulamentação específica no Brasil, o uso inadequado de IA em processos seletivos pode levar a ações judiciais por discriminação, conforme alertam especialistas."

Debates em redes sociais, como no X, destacam como a IA reforça preconceitos no RH, com usuários relatando rejeições automáticas em processos seletivos. Para empresas, é eficiência; para candidatos, é uma barreira invisível que desumaniza o recrutamento.

Em tempos de tantas desigualdades, chegamos à conclusão de que a proteção dos direitos em um mercado digital tem um preço.

O recrutamento velado é uma forma simples em que recrutadores não utilizam a inteligência psicosocial e pouca inteligência profissional. Pois quem garante que, após o selecionado se tornar colaborador, ele não irá com uma ação contra a empresa que não cumpriu com seus deveres. Não analisar o profissionalismo impulsionado por consultas fáceis via CPF é considerado um deserviço para a empresa.

 

E agora a IA expõe uma falha no sistema brasileiro: a transparência que deveria empoderar trabalhadores vira arma contra as próprias empresas que continuam "fraudando" a ética ao priorizar lucros sobre direitos, mas soluções existem: pedir segredo de justiça em processos sensíveis, consultar advogados para ações contra discriminação e apoiar regulamentações para IA no RH. Trabalhadores devem se informar sobre seus direitos – e empresas, refletir se rejeitar "litigantes" não é, na verdade, admitir falhas em suas próprias práticas laborais. No final, um mercado justo beneficia todos, não apenas os que apertam o "botão start" da exclusão.

Às grandes corporações que apregoam responsabilidade social no tempo do ESG: a verdadeira sustentabilidade começa com honestidade. Vocês afirmam ser responsáveis pelos seus funcionários, mas a prática do recrutamento velado, usando consultas por CPF e algoritmos de IA para excluir trabalhadores com histórico judicial, revela uma realidade distante dos valores que defendem.

Se um ex-colaborador buscou seus direitos legais, há uma grande possibilidade de que a empresa tenha infringido alguma norma trabalhista. Esse fato, no entanto, não deve ser motivo de discriminação. É importante lembrar que o profissional pode ter simplesmente exercido um direito legítimo e, inclusive, já estar reinserido no mercado, contribuindo em uma nova organização.

Então, por que essa discriminação ainda persiste? A prática de rotular candidatos por terem acionado a Justiça do Trabalho é não apenas antiética, mas também ilegal. Ela reforça preconceitos e desrespeita o princípio da igualdade de oportunidades, previsto na legislação brasileira e em políticas de compliance que muitas empresas afirmam seguir, mas nem sempre cumprem na prática.

Punir quem busca seus direitos trabalhistas não é gestão de risco; é covardia ética. No século XXI, a transparência deve servir à justiça, não à discriminação. Assumam a responsabilidade de construir um mercado de trabalho justo, onde o talento e a dignidade do trabalhador sejam o único "botão start" que importa.

Bacharel em Jornalismo pela Universidade Estácio, com mais de 15 anos de atuação no setor aquaviário, em contextos nacionais e com vivência internacional. Autor do livro Ship Planner – Planejamento Operacional (2014) e de diversos artigos dedicados ao setor portuário. Redator e idealizador da revista eletrônica Jornal Portuário. (MTB: 87682/SP).