Grande parte, quer descobrir sua descendência, mas poucos lembram da sua afrodescendência. Um artigo irônico sobre descendência, identidade e a curiosa busca moderna por cidadania.

Boa leitura!

Nos últimos anos, virou quase um esporte nacional brasileiro, descobrir algum bisavô europeu perdido na árvore genealógica. Basta aparecer um sobrenome português, italiano ou espanhol que imediatamente surge a pergunta: “Será que dá para tirar cidadania?”. O interesse, claro, não é exatamente cultural. É burocrático. O objetivo final costuma ser um passaporte europeu.

De repente, muita gente que nunca demonstrou curiosidade pela própria história familiar passa a investigar cartórios, igrejas e arquivos antigos em busca da prova de que, em algum momento da história, um antepassado pisou em Portugal ou em outro pedaço da Europa.

Curiosamente, essa corrida pela “descendência europeia” revela algo bastante humano: a tendência de valorizar certas origens enquanto outras são convenientemente esquecidas.

A ciência, por exemplo, já demonstrou há décadas que a origem da espécie humana está no continente africano. O chamado “berço da humanidade” está na África, onde surgiram os primeiros representantes do Homo sapiens. Em outras palavras, independentemente de sobrenomes ou documentos de cartório, todos nós temos raízes profundas naquele continente, relembrando "Africa".

Mas essa parte da árvore genealógica raramente vira motivo de fila em consulado.

Talvez porque não exista um “passaporte africano universal” para reivindicar.

Existe ainda outra camada curiosa nessa discussão. A própria ciência mostra que os humanos fazem parte da ordem dos primatas, grupo biológico que inclui chimpanzés, gorilas e outros parentes evolutivos. A teoria proposta por Charles Darwin no século XIX não afirma que o homem “veio do macaco”, como muitas caricaturas repetem, mas que humanos e outros primatas compartilham um ancestral comum.

Ou seja, se quisermos levar a genealogia até suas últimas consequências, nossa árvore familiar fica bem mais interessante do que qualquer cartório europeu poderia registrar.

Diante disso, a obsessão contemporânea por um passaporte europeu ganha um toque irônico. Enquanto alguns buscam certidões antigas para provar sua ligação com a Europa, a biologia lembra que a história humana começou muito antes de qualquer fronteira, consulado ou nacionalidade.

No fundo, todos somos migrantes de uma longa jornada evolutiva.

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E se a lógica da cidadania fosse aplicada ao reino animal, talvez restasse uma pergunta curiosa: alguém estaria disposto a pedir um passaporte para o país das bananas?

Provavelmente não.

Mas, biologicamente falando, talvez fosse o único passaporte realmente universal.