No mundo digital onde se busca, clics, palmas e seguidores, o marketing corporativo é uma obra de arte impecável.

Diante dos holofotes do mercado financeiro e da imprensa, o operador portuário escancara com orgulho o seu mais novo troféu: R$ 2 bilhões injetados na compra de guindastes monumentais e frotas 100% elétricas. 

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Sob o manto sagrado do ESG, a empresa vende ao mundo a imagem límpida de um "porto verde", vanguardista e ambientalmente responsável.

Mas, longe do brilho das câmeras, nos bastidores abafados das salas de negociação, a realidade é despida de qualquer humanidade ; caneta que assina os cheques bilionários para a tecnologia é a mesma que decreta o congelamento cruel de salários e reajustes por dois anos.

É a era do porto verde e dos pratos brancos.

Verde pela energia elétrica limpa que alimenta os motores dos novos maquinários; branco pelo vazio da porcelana que resta na mesa do trabalhador.

Enquanto o terminal celebra a redução de carbono na atmosfera, promove silenciosamente a asfixia financeira dentro dos lares de sua própria força de trabalho.

Consolida-se uma realidade perversa no cais: quem mais corre riscos de vida, quem enfrenta diariamente o perigo iminente de acidentes graves e a severidade do trabalho portuário sob o sol e a chuva, é justamente quem menos colhe os frutos dessa dita modernização. 

A tecnologia chega para multiplicar a produtividade e inflar as margens de lucro dos acionistas, mas para o operário, a contrapartida é a perda real do poder de compra e a angústia da estagnação econômica.

Agora, em meio ao impasse, a empresa clama por ajuda, pede sacrifícios e tenta emplacar o discurso de que o momento exige austeridade. No entanto, aos olhos do trabalhador que gasta sua saúde e sua vida para fazer o porto girar, fica a pergunta inevitável e devastadora: 
se está "ruim" para uma empresa que movimenta e investe bilhões, imagina para quem trabalha para ela ? A sustentabilidade de fachada não pode mais ocultar a miséria planejada. 

Não há transição ecológica legítima que se sustente sobre a fome e o desrespeito á dignidade humana, á saúde e principalmente a sustentabilidade familiar.