Existe algo fascinante acontecendo na América do Sul. Não, não é um novo plano logístico brasileiro, nem um salto de eficiência nos nossos portos. É o contrário. Enquanto seguimos discutindo projetos, revisando estudos, judicializando decisões e organizando seminários sobre competitividade, o Peru decidiu… construir um porto.
E mais curioso ainda: já está operacional. O Porto de Chancay, controlado majoritariamente pela gigante chinesa COSCO Shipping, que detém 60% do projeto em parceria com a peruana Volcan, nasce com perfil estratégico dentro da iniciativa global conhecida como Nova Rota da Seda.
Existe um recado chines ao mundo, que esse empreendimento não é apenas mais um terminal portuário. É um daqueles recados, que não chegam em forma de ofício, mas em forma de navio atracado, operação iniciada e carga embarcada. E o mais impressionante não é a grandiosidade do projeto. É a simplicidade da lógica.
Se a Ásia é o destino, por que continuar saindo pelo Atlântico? Enquanto essa pergunta ecoava, aparentemente ignorada por aqui, em terras tupi-guarani, alguém resolveu respondê-la na prática.
E assim nasce uma nova rota. Não anunciada em grandes discursos nacionais, não debatida em profundidade nos fóruns intermináveis, mas absolutamente real.
Uma rota mais curta, mais eficiente e, como sempre acontece nesses casos, mais perigosa para quem ficou parado. O tempo de viagem caiu. Os custos também. E a previsibilidade, essa palavra quase exótica no vocabulário logístico brasileiro, virou diferencial competitivo.
Mas calma. Ainda temos algumas vantagens. Temos burocracia. Temos insegurança jurídica. Temos projetos que “estão avançando”, expressão essa que no Brasil pode significar qualquer coisa entre sair do papel ou continuar exatamente onde sempre esteve.
Enquanto isso, cargas começam a olhar para o mapa com um certo senso de independência. E o mapa, convenhamos, não mente. Para o produtor do Centro-Oeste, a conta é simples.
Se for mais barato e rápido cruzar a fronteira, chegar ao Pacífico e embarcar direto para Xangai, a escolha deixa de ser ideológica e passa a ser matemática. E contra a matemática, o discurso perde.
Os portos brasileiros, como Porto de Santos, continuam gigantes. Mas tamanho, sozinho, nunca foi garantia de eficiência. Dinossauros também eram grandes. A diferença é que, neste caso, o meteorito não vem do espaço. Ele vem do Pacífico.
E atende pelo nome de Chancay. Claro, ainda há desafios. A infraestrutura terrestre não está completamente pronta, os corredores logísticos precisam amadurecer e a integração regional ainda depende de investimentos.
Mas aqui entra outro detalhe incômodo: eles estão resolvendo. E nós, bem… estamos acompanhando. Talvez o maior risco não seja perder carga imediatamente. É perder relevância aos poucos, em silêncio, sem perceber. Quando dermos conta, não será uma crise. Será apenas o novo normal.
A rota já está sendo criada. Não em PowerPoint, mas em concreto, aço e decisões executadas. E tudo isso acontecendo, ironicamente, bem diante dos nossos olhos.
Mas fique tranquilo. Em breve devemos ter um acordo bilateral de trabalho para discutir o assunto.

