Nesta data, 28.04.2026, a Autoridade Portuária de Santos ( A.P.S.) anunciou uma marca vertiginosa: 42,8 milhões de toneladas movimentadas apenas no primeiro trimestre de 2026. É um volume tão colossal que, em apenas 90 dias, quase igualamos o melhor resultado de um ano inteiro do século passado.
No papel, somos gigantes. Na planilha, somos imbatíveis.
Mas o que a estatística ostenta, o corpo padece.
Ironia trágica ou sarcasmo do destino, neste mesmo 28 de abril — Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho — o Ministério do Trabalho e Emprego lança a sombra sobre a luz: batemos também o recorde histórico de vítimas, acidentes e afastamentos.
É preciso coragem para ler o que está entre as linhas e cabeços do Porto: as toneladas que cruzam o oceano pesam nos ombros de quem não aparece na foto oficial.
A produtividade "record" não brota do vazio; ela é extraída de turnos exaustivos, da pressão pelo tempo que não para e do suor que, muitas vezes, é a última coisa que um trabalhador entrega antes de se tornar apenas mais um dígito na coluna dos afastados.
A pergunta que fica, incômoda e urgente, ecoa no cais e nos terminais públicos e privados :
Quanto o Porto de Santos efetivamente contribuiu para alimentar "os números da morte" ?
Celebramos o aço, a soja e o contêiner, mas ignoramos o custo humano da velocidade. Até quando aceitaremos que o "sucesso" da economia, é da logística portuária e operacional seja medido pelo número de caixões e laudos médicos?
Se o lucro é histórico, a tragédia também é. E uma conta que só fecha com o sacrifício da vida não é progresso; é barbárie mascarada de eficiência.
Você acredita que o equilíbrio entre metas de produção e segurança no trabalho é realmente prioridade ou apenas um discurso corporativo?