Hoje abordo um tema extremamente sensível e complexo, que exige responsabilidade, equilíbrio e respeito em sua análise. Trata-se de um assunto que precisa ser debatido em todos os âmbitos da sociedade, sem simplificações ou julgamentos precipitados.
Faço questão de deixar claro, desde o início, que nenhuma forma de agressão, independentemente de onde tenha partido, pode ser confundida com justiça ou legitimada sob qualquer argumento.
Trata-se de um caso de assédio ocorrido ao vivo, que acabou sendo abafado da forma mais eficiente dentro do chamado padrão Globo.
É inegável que a questão do feminicídio existe e deve ser tratada com seriedade, analisando cada caso de forma individualizada. Em hipótese alguma essa realidade pode ou deve ser minimizada. No entanto, também é preciso reconhecer que existem outros fatos relevantes que recebem pouca ou nenhuma visibilidade da mídia. Como exemplo, houve recentemente dois casos isolados em que mulheres também foram responsáveis pela morte de seus respectivos namorados, episódios que praticamente não tiveram repercussão nacional.
Em um dos casos, motivado por ciúmes, a autora atropelou o ex-namorado, o que resultou em seu óbito. Acredito que episódios como esse também deveriam ser considerados nas estatísticas oficiais, ou não?É nesse ponto que quero chegar: a mídia muitas vezes constrói um ambiente de caos seletivo para gerar comoção nacional. A isso damos o nome de narrativa.
Ainda assim, é fundamental deixar claro que nenhuma ação violenta ou qualquer forma de agressão, independentemente de quem a pratique, deve ser relativizada ou aplaudida.
O feminicídio é uma chaga social real no Brasil. Os números são alarmantes, os casos são recorrentes e as histórias por trás dessas estatísticas revelam contextos de violência estrutural, desigualdade e falhas do Estado. Negar essa realidade seria irresponsável. Contudo, discutir o tema exige maturidade, equilíbrio e, sobretudo, compromisso com a verdade completa, não apenas com recortes convenientes.
Um ponto importante nesse debate é a questão da indução ao comportamento violento. Muitas ações não surgem do nada; elas são construídas e reforçadas por conteúdos recorrentes das chamadas “novelas da vida real”, que acabam sendo absorvidos por pessoas já emocionalmente fragilizadas ou sem discernimento crítico.
Esses conteúdos, repetidos diariamente, ensinam, ainda que de forma indireta, como determinados atos podem ser praticados. Basta assistir a um capítulo ou outro para perceber padrões, situações repetidas e até verdadeiros “déjà-vus” de violência, apresentados com diferentes graus de crueldade.
É nesse momento que o alerta precisa ser feito: crianças e adolescentes não deveriam estar expostos a esse tipo de conteúdo. Infelizmente, inúmeras famílias já foram desestruturadas porque filhos aprenderam, por meio da banalização da violência na mídia, comportamentos agressivos e destrutivos, muitas vezes reproduzidos sem plena consciência das consequências.
O problema surge quando a abordagem deixa de ser informativa e passa a ser seletiva. Determinados casos ganham ampla exposição, manchetes contínuas e mobilização nacional, enquanto outros, igualmente graves, são tratados como notas de rodapé ou simplesmente ignorados. Essa assimetria não contribui para o enfrentamento da violência, mas sim para a construção de uma percepção social moldada por interesses editoriais, ideológicos ou comerciais.
Quando um episódio ocorre dentro de um grande produto midiático, como um reality show de alcance nacional, a expectativa natural é que ele seja tratado com o mesmo rigor adotado nos telejornais e programas de jornalismo investigativo. O que se observa, muitas vezes, é o oposto: relativização, silenciamento ou enquadramento conveniente para preservar marcas, audiências e narrativas já estabelecidas.
Isso não significa negar a gravidade do feminicídio nem deslegitimar a luta das mulheres por segurança e justiça. Significa, sim, questionar se a sociedade está sendo devidamente informada ou apenas conduzida emocionalmente por discursos prontos. A informação responsável não escolhe vítimas, não hierarquiza dores e não ignora fatos que destoam da narrativa dominante.
Violência é violência. Seja praticada por homens ou por mulheres, em contextos domésticos ou midiáticos, em silêncio ou sob os holofotes. Nenhuma agressão deve ser normalizada, minimizada ou utilizada como instrumento de conveniência discursiva.
O combate ao feminicídio exige políticas públicas eficazes, educação, prevenção e justiça. Mas exige também uma imprensa comprometida com a complexidade dos fatos, não apenas com a comoção que eles podem gerar. Sem isso, corre-se o risco de transformar um problema sério em espetáculo e uma tragédia real em ferramenta narrativa.
É inegável que a questão do feminicídio existe e deve ser tratada com seriedade, analisando cada caso de forma individualizada. Em hipótese alguma essa realidade pode ou deve ser minimizada.

